Onda azul nos Estados Unidos pode favorecer produtor brasileiro

A onda azul que varreu os Estados Unidos na eleição de terça-feira (3) vai ser favorável aos produtores brasileiros. Os democratas, os grandes vencedores, de alguma forma vão ter de atender aos anseios do meio rural, que rejeitou, por meio do voto, a política

Por Admin ·

Onda azul nos Estados Unidos pode favorecer produtor brasileiro

Em alguns pontos, os entraves colocados aos produtores rurais ainda vão depender da política e da vontade do atual presidente, mas a simples troca de mãos no Congresso já será motivo de pressão sobre o atual governo. Além disso, se ele quiser manter viva a esperança de uma recuperação dos republicanos em 2028, terá de rever a política que vem desenvolvendo.

Muitos motivos ocasionaram a derrota de Trump. Dois deles foram fundamentais: tarifas e guerra no Irã . A pressão dos democratas sobre esses dois pontos, que dependem da decisão do presidente, vai ser forte, e Trump, se quiser reaver um mínimo de confiança dos produtores rurais, vai ter de voltar atrás nessas questões.

Ambas favorecem o Brasil. A guerra no Irã, assim como prejudica o produtor rural americano, provocando aumento dos insumos básicos para a produção, pressiona o agricultor brasileiro. Um acordo para o fim do conflito recoloca fertilizantes, diesel e logística em patamares tradicionais.

Congressistas e produtores vão colocar pressão também sobre as tarifas impostas aos parceiros comerciais dos Estados Unidos , o que os políticos do Partido Republicano não tinham feito até agora. O Brasil está na lista dos países com as taxas mais pesadas. Uma revisão nessa política comercial pode reduzir custos internos dos Estados Unidos, inclusive do agronegócio. Além de insumos que vêm de fora, os produtos industriais utilizados pelo setor, como máquinas agrícolas, ficaram mais caros depois das pesadas taxas sobre os metais importados, inclusive os do Brasil.

Um alívio nas tarifas pode dar maior competitividade aos produtos agropecuários dos Estados Unidos, diminuindo um pouco a concorrência dos do Brasil. É o caso da soja. Os americanos continuam sendo taxados em 10% pelos chineses, enquanto o Brasil não tem essa taxa extra. As negociações com a China, no entanto, não serão fáceis para os EUA.

Em vista dos resultados das urnas, os chineses não vão ceder facilmente nas negociações diante da fraqueza do presidente americano neste momento e, provavelmente, até o fim do mandato. Se cederem, o Brasil sairá enfraquecido.

Para os produtores americanos, algumas mudanças esperadas há vários anos podem ocorrer já nos próximos meses. Uma delas é a aprovação da Farm Bill, a lei agrícola dos Estados Unidos, que, em geral, é aprovada a cada cinco anos. A última, que já teve prorrogações, é de 2018. O corte que os republicanos querem no auxílio às pessoas mais necessitadas no caso da alimentação sempre foi negado pelos democratas.

O Snap (Supplemental Nutrition Assistance Program), principal programa de ajuda alimentar nos Estados Unidos, que faz parte da Farm Bill, virou um impasse no Senado. Além de cortes propostos por republicanos, eles querem que os estados participem mais desses gastos. Participavam desse programa 37 milhões de pessoas em 2025, abaixo dos 42 milhões de 2024. É provável que os republicanos se apressem para a aprovação da lei agora porque em 2027 serão minoria.

A Farm Bill poderá trazer também uma política mais favorável nas questões de seguro, efeitos climáticos e flutuação de preços das commodities, melhorando a renda no campo. Os produtores esperam, ainda, novos rumos do governo na questão da mão de obra no campo. Além dos custos dos insumos, o setor rural tem dificuldades para a contratação de trabalhadores, principalmente pela política de imigração do governo.

O setor rural poderá perder, no entanto, um pouco da representatividade no Congresso. Essa renovação está levando para Washington políticos menos experientes na agropecuária, devido à aposentadoria de uns e à substituição de outros por meio do voto. O setor tem atualmente 139 congressistas voltados para o agronegócio, mas a partir de 2027, pelos números atuais, serão 119, segundo o Farm Journal.

A onda azul trouxe uma situação inédita para os produtores rurais. A troca de cadeiras de republicanos por democratas fará com que todos os principais produtos produzidos no país fiquem nas mãos de estados com governadores ou representantes em Washington democratas.

No Iowa, líder na produção de milho, a principal cultura dos Estados Unidos, o representante do Senado trocou de mãos. Isso ocorreu também no Texas, que tem o maior rebanho bovino; no Kansas, líder na produção de trigo de inverno e de sorgo; na Carolina do Norte, líder em tabaco; na Carolina do Sul, importante em hortaliças; no Maine, líder na produção de mirtilo silvestre e destaque na pesca de lagosta, e em Ohio, líder em queijo tipo suíço. Iowa lidera também as produções de suínos, ovos e etanol.

Em alguns estados foi mantida a liderança democrata. Isso ocorreu na Califórnia, maior economia agropecuária do país; na Geórgia, líder em frango, e em Illinois, líder em soja. Na Flórida, que manteve liderança republicana, há importante produção de açúcar. Mas só a do produto oriundo da cana-de-açúcar, uma vez que Minnesota lidera a produção vinda da beterraba.

Os democratas ainda festejam a vitória nas eleições de meio de mandato presidencial, mas vão ter grandes desafios pela frente para sugerir e estabelecer políticas que devolvam estabilidade ao setor agropecuário.