“Bolas de fogo” extremamente brilhantes podem cruzar o céu durante o Halloween. O fenômeno está associado às Táuridas, uma chuva de meteoros que ocorre todos os anos nessa época e desperta o interesse dos astrônomos tanto pelo espetáculo visual quanto pela possibilidade de conter fragmentos maiores.
As Táuridas são divididas em dois grupos: as Táuridas do Sul e as Táuridas do Norte. A primeira ocorre entre setembro e novembro no hemisfério sul, com atividade prolongada e poucos meteoros por hora. Seu pico está previsto para quinta-feira (5), mas a observação depende das condições do tempo, da escuridão do céu e da posição aparente dos meteoros. Já a segunda ocorre entre outubro e dezembro, com pico em novembro. Assim como as do Sul, essa corrente produz poucos meteoros por hora, mas pode surpreender pela ocorrência de bolas de fogo muito luminosas.
A característica mais marcante dessa chuva são as chamadas bolas de fogo, meteoros excepcionalmente brilhantes que podem superar o brilho de Vênus e permanecer visíveis por mais tempo do que outros rastros luminosos. Como costumam aparecer perto do Halloween, em 31 de outubro, esses clarões também são conhecidos como bolas de fogo de Halloween.
Chuva de meteoros Táuridas do Sul vista em outubro de 2020 sobre a Estação Bharati, na Antártica, acompanhada das luzes da aurora austral, com Marte à direita. – Crédito: Ankush Magotra/Reprodução X
O que é um meteoro “bola de fogo”?
Quando pequenas rochas espaciais, chamadas meteoroides, entram na atmosfera terrestre a altíssimas velocidades, mesmo fragmentos minúsculos aquecem o ar e produzem um intenso clarão, que os astrônomos chamam de meteoro (popularmente conhecidos como “estrelas cadentes”).
Esses eventos são apenas luminosos – não são objetos físicos. “Meteoro não é sólido, não é líquido nem gasoso, é apenas luz”, explica Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (Bramon) e colunista do Olhar Digital.
De acordo com a Sociedade Americana de Meteoros (AMS), quando o brilho de um meteoro é igual ou superior ao de Vênus (magnitude -4), ele é classificado como “bola de fogo”. Se for ainda mais intenso, com explosão e possível estrondo audível, é chamado de “bólido”.
Terminologia dos meteoros – Crédito: AMS
De onde vêm as bolas de fogo das Táuridas?
A origem do fenômeno está no cometa 2P/Encke, o segundo cometa periódico descoberto na história da astronomia, depois do famoso 1P/Halley. Durante suas passagens pelo Sistema Solar, o Encke deixa partículas de poeira e fragmentos rochosos ao longo de sua órbita. Quando a Terra atravessa essa região, parte desse material entra na atmosfera e produz os meteoros.
Esses rastros luminosos surgem quando partículas espaciais entram em alta velocidade na atmosfera terrestre e aquecem o gás ao redor, produzindo luz. Os fragmentos maiores podem gerar clarões especialmente intensos. O nome Táuridas vem da constelação de Touro, na direção da qual os meteoros parecem surgir no céu. Esse ponto aparente de origem é chamado de radiante.
A corrente de detritos associada ao Encke também cruza a região da Terra em junho, durante o dia. Nesse período, o fenômeno recebe o nome de Beta Táuridas. Embora não seja possível observar diretamente seus meteoros em plena luz solar, o estudo dessa corrente ajuda os pesquisadores a compreender melhor a distribuição dos fragmentos e os possíveis riscos associados a objetos maiores.
Um meteoro da chuva Táuridas fotografado em 2015 no Quênia. Crédito: Babak Tafreshi (TWAN) via APOD NASA
Chuva de meteoros Táuridas pede atenção em 2032 e 2036
Um estudo publicado na revista científica Acta Astronautica investigou se a corrente de detritos das Táuridas pode conter agrupamentos de objetos relativamente grandes. Os pesquisadores analisaram a possibilidade de existirem enxames ressonantes, concentrações de fragmentos que podem se formar sob a influência gravitacional de Júpiter. Essa distribuição poderia aumentar a quantidade de objetos encontrados pela Terra em determinadas regiões da órbita.
Segundo os modelos analisados, o planeta poderá atravessar áreas potencialmente mais densas dessa corrente em 2032 e 2036. Caso esses agrupamentos realmente existam, a chance de encontrar objetos maiores poderia aumentar nesses períodos. Isso não significa, porém, que uma colisão esteja prevista ou que uma catástrofe seja esperada. A hipótese ainda precisa ser investigada para que o risco possa ser estimado com maior precisão.
A maioria dos objetos que produz meteoros é pequena o suficiente para se desintegrar na atmosfera. Corpos maiores, entretanto, podem explodir antes de atingir o solo e liberar grandes quantidades de energia. Foi o que aconteceu em Chelyabinsk, na Rússia, em 2013, quando uma explosão atmosférica provocou danos e ferimentos, principalmente por estilhaços de vidro. Em 1908, o evento de Tunguska devastou uma extensa área florestal na Sibéria.
Para avaliar a hipótese dos enxames, a equipe combinou observações recentes com modelos teóricos sobre a distribuição dos fragmentos. Bolas de fogo excepcionalmente brilhantes e registros de impactos na Lua estão entre as evidências indiretas consideradas pelos pesquisadores. O monitoramento futuro poderá ajudar a esclarecer a composição desses agrupamentos e determinar se há objetos que mereçam atenção especial.
Impressionante bola de fogo associada à chuva de meteoros Táuridas do Norte fotografada nos Alpes Dolomitas italianos em novembro de 2017. – Crédito: Ollie Taylor via APOD NASA
Mesmo que concentrações de fragmentos sejam confirmadas, a probabilidade de um impacto direto continua sendo considerada baixa. Instrumentos de defesa planetária, como o telescópio espacial infravermelho NEO Surveyor, da NASA, poderão contribuir para localizar e caracterizar asteroides e outros objetos próximos da Terra. A detecção antecipada é importante porque permite calcular trajetórias e avaliar possíveis medidas de proteção, caso sejam necessárias.
O estudo também chama a atenção para informações exageradas que circulam na internet sobre supostas ameaças cósmicas. Mark Boslough, pesquisador da Universidade do Novo México e especialista em defesa planetária que liderou o trabalho, ressalta a importância de avaliar os riscos com base em evidências científicas. A existência de uma hipótese de pesquisa não significa que um evento perigoso seja inevitável, nem sustenta previsões de catástrofes globais.
Como ver as “bolas de fogo” de Halloween
Para tentar observar as Táuridas, o ideal é escolher um local afastado das luzes das cidades, com céu aberto e poucas nuvens. Embora essa chuva não esteja entre as mais intensas do ano, seus meteoros podem surpreender pelo brilho. As melhores oportunidades de observação costumam ocorrer entre 1h e 3h da madrugada, quando o radiante das Táuridas do Sul está mais alto no céu.
Aplicativos como Stellarium, Star Walk e SkySafari ajudam a identificar constelações e orientar a observação. Não é necessário utilizar telescópio ou binóculos: olhar para uma região ampla do céu permite acompanhar os rastros luminosos. Basta ter paciência, adaptar os olhos à escuridão e torcer para que uma bola de fogo apareça durante a noite.