Levantamento a que a Folha teve acesso aponta que o número de viagens realizadas diariamente na capital paulista caiu 23% em seis anos, impactando tanto dias úteis quanto fins de semana, em todas as regiões. Em dias da semana, a variação significa 43.013 trajetos a menos por dia. No caso de transporte noturno, a redução é ainda maior: de 47%.
A comparação foi feita pelo gabinete do vereador Nabil Bonduki (PT), cuja assessoria técnica que compilou dados da média de junho de 2019 e de junho de 2025 fornecidos pela SPTrans —empresa de economia mista da prefeitura, responsável por gerenciar o transporte municipal —por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação).
Em nota, a gestão Ricardo Nunes ( MDB ) respondeu que a oferta de transporte público acompanha a demanda, atribuindo a redução de usuários ao teletrabalho e à expansão da rede metroferroviária. Ainda destacou investimentos na eletrificação da frota, na implantação de corredores e outras medidas.
Além disso, a prefeitura disse que "é equivocada a análise da reportagem, uma vez que desconsidera a demanda de passageiros em cada período para avaliar a oferta de viagens". Afirmou que houve aumento de 16% na proporção de viagens programadas e passageiros em dias úteis.
Em números absolutos, porém, os dados informados na nota mostram redução das 175.162 viagens programadas por dia útil em 2019 para 157.811 em 2025. Ou seja, queda de 9,9%. Diferentemente dos dados fornecidos via LAI, a comparação municipal considera apenas viagens programadas (e não as realizadas) e não inclui os fins de semana.
A queda nas viagens é maior do que a diminuição da frota contratada, de 5,54% na média anual do mesmo período, de acordo com dados públicos divulgados mensalmente pela SPTrans. No mesmo período, o número de passageiros transportados caiu 19,81%.
Em pesquisa divulgada pela Fundação Seade neste mês, 77% dos entrevistados no estado de São Paulo avaliaram que a mobilidade por aplicativo ajuda quando o transporte público demora ou é difícil de utilizar. Além disso, 58% responderam que ajuda a evitar situações de risco e traz mais segurança.
O levantamento ouviu 8.189 moradores a partir de 18 anos entre maio e junho de 2026. Entre os adeptos, 47% disseram que utilizam apps para trajetos curtos, 19% para longos e 34% para ambas as situações.
Esse tipo de comportamento é visto até mesmo em pontos de ônibus, terminais e estações, em que os aplicativos complementam parte do trajeto da população, como destaca Luiz Vicente De Mello Filho, especialista em mobilidade com pós-doutorado em engenharia do transporte pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
"Acontece em São Paulo e em muitas outras cidades, é uma concorrência direta", diz.
Para o pesquisador, a queda na capital paulista somente não é maior porque parte dos usuários ganha vale-transporte. Também porque a operação de transporte por app para motocicletas está suspensa na cidade.
Ele atribui a redução da oferta em parte à dificuldade de bancar o serviço com um modelo de contrato "do século passado". "A diferença é gritante: todo mundo tem celular, chama a qualquer hora, na palma da mão. Vira um 'complemento' [a trajeto maior feito por outra linha de ônibus ou por trilhos]."
Mello Filho menciona que essa concorrência não ocorre de forma expressiva com o metrô, por exemplo, que tem maior previsibilidade e intervalos curtos de espera, entre outras vantagens. Além disso, pontua que o poder público deveria considerar que o fortalecimento do transporte coletivo traz diversos ganhos à cidade, enquanto apps tendem a impactar mais o trânsito e o meio ambiente.
Avaliação semelhante é feita pelo especialista em mobilidade Rafael Calabria, que compilou os dados fornecidos pelo gabinete do vereador. Para ele, a redução da oferta piora o serviço. "A SPTrans está dando passageiros para o transporte individual", sintetiza.
De acordo com relatório anual da SPTrans, a prefeitura repassou R$ 7,12 bilhões em compensações tarifárias às empresas de ônibus em 2025. Esse subsídio é voltado a equilibrar as contas, já que o valor da passagem não cobre todo o custo do serviço.
O levantamento de redução de viagens também traz dados para a maioria dos terminais de ônibus da cidade. As maiores quedas ocorreram nos terminais Vila Prudente, na zona leste, e Casa Verde, na norte, respectivamente de 47% e 45%.
Por outro lado, do total de 32, houve aumento em apenas um: o terminal Parelheiros, no extremo sul, de 20%. Confira a mudança em cada terminal a seguir.