A história da República no Brasil é farta em oligarquias regionais, mas sempre se mostrou refratária à construção de dinastias de projeção nacional. Longe de representar um fracasso, a ausência de sucessões familiares diretas na chefia do Estado desde a queda da casa imperial em 1889 reflete o cumprimento bem-sucedido do próprio princípio republicano.
A experiência mais próxima de hereditariedade com projeção na disputa nacional se resume a dois casos: Aécio Neves , neto de Tancredo Neves , que perdeu para Dilma Rousseff em 2014, e, antes, em 2002, a promissora candidatura de Roseana Sarney à Presidência, abatida pelo caso Lunus.
Jair Bolsonaro, contudo, realizou um feito sem precedentes ao transcender os limites regionais e transferir aos descendentes e à esposa seu capital eleitoral.
O fenômeno da força eleitoral do sobrenome Bolsonaro revela a persistência de um tipo de adesão à pessoa do líder mais que aos princípios impessoais da lei republicana. Trata-se da busca atávica por uma figura de comando patriarcal que, encarnada em uma linhagem familiar, prometa a permanência da ordem e ofereça segurança psicológica de uma estirpe protetora contra a volatilidade democrática.
A parcela exclusivamente bolsonarista dos quase 60 milhões de votos do filho 01 expressava uma preferência essencialmente dinástica, e não ideológica. Isso ficou evidente quando Flávio Bolsonaro abraçou pautas historicamente criticadas pela direita: Bolsa Família , fim da escala 6x1 e combate ao feminicídio .
Por menos, outros candidatos já foram cancelados pelo bolsonarismo; apesar disso, Flávio não perdeu o apoio da direita ou da Faria Lima. O sangue de Bolsonaro liberava o candidato para abraçar eleitoralmente bandeiras da esquerda.
A forma de governo monárquica obteve pouco mais de 10% no plebiscito realizado em 1993. Se o plebiscito fosse realizado novamente e a Casa de Orleans e Bragança fosse substituída pela Casa Bolsonaro, a República ainda ganharia, mas a neomonarquia bolsonarista superaria facilmente os 10% alcançados pela opção monarquista à época.
Jair Bolsonaro elevou a outro patamar de fidelidade o "voto no sangue", um antigo conhecido da política brasileira. Na clássica formulação de Max Weber , o carisma é uma força pessoal e transitória, cuja sobrevivência é ameaçada pelo afastamento do líder original. A neomonarquia bolsonarista contorna essa limitação ao operar a rotinização do carisma, convertendo-o em carisma de herança.
Essa transferência de sacralidade ganha ressonância na teologia política e na religiosidade popular evangélica. A aproximação com o eleitorado evangélico conecta-se com o imaginário do Antigo Testamento, no qual a autoridade dos governantes deriva da bênção divina transmitida pela linhagem.
Quando a promessa de consagração religiosa do Estado junta-se à perpetuação familiar, o eleitor bolsonarista não enxerga nepotismo, mas um pacto providencial. Sob essa ótica, o desenho de uma neomonarquia tornou-se palatável para a elite do dinheiro: a dinastia Bolsonaro retém o afeto das massas e a legitimidade simbólica, enquanto a gestão prática é delegada a tecnocratas e políticos fisiológicos.
É pouco provável que a eleição presidencial de 2030 tenha o nome de um dos filhos de Bolsonaro na urna, mas a dinastia estará representada por Michelle Bolsonaro . No segmento evangélico, são frequentes as referências que comparam Michelle à rainha Ester. Há inclusive um mote para a campanha presidencial: "E quem sabe se para conjuntura como esta é que foi elevada a rainha?" (Ester 4:14).