O truque não é novo, já foi usado por outros políticos em diversas situações, mas ainda assim o desafio da quebra de sigilos lançado por Luiz Inácio da Silva ( PT ) a Flávio Bolsonaro ( PL ) é uma boa artimanha.
Se o desafiado aceita, entra no jogo do desafiante; se nega ou ignora, deixa no ar a suspeita de que tem sujeiras a esconder. Quem faz esse tipo de provocação prefere a segunda hipótese, que lhe dá o controle do confronto entre honestos e presumidos desonestos.
Isso feito nos últimos dias de campanha tem efeito ainda melhor, porque mesmo que sejam abertos os dados, não há tempo para um exame detalhado que permita conclusões precisas a respeito dos procedimentos ocultos de um ou de outro. Fica a desconfiança, mas o lance termina em conta de soma zero. O arsenal de última hora —atos de rua, ofensiva nas redes, abuso da máquina, promessas inexequíveis, boataria a rodo— não se sabe se servirá para a virada, mas está claro que serviu para impedir a escalada da dianteira do Bolsonaro da vez. Sem entrar no mérito do aspecto ético, o instrumental mostrou-se eficaz de alguma maneira. Talvez se tivesse sido acionado desde o começo, a situação de Lula pudesse ser bem melhor que a de estar no risco de encerrar a carreira com uma derrota para alguém em quem nem os aliados reconhecem qualificação adequada. O desmonte da figura de Flávio Bolsonaro, a exibição de suas fragilidades e mesmo as impossibilidades para assumir a tarefa de pôr a economia nos trilhos e reorganizar a institucionalidade não teria sido difícil. O presidente, contudo, ignorou a necessidade de investir na boa governabilidade e nas condutas corretas, de modo a que a comparação com o antagonista não ficasse apenas refém do mantra do "nós" democratas de fé contra "eles" fascistas juramentados. Em qualquer cenário, ganhando ou perdendo, Lula e a esquerda terão de se render ao imperativo da autocrítica para o bem da sobrevivência. Como governo ou oposição.