O rumo para Selic em um dígito

Sua principal tarefa na economia agora é tomar medidas para reduzir a taxa real de juros . Não é com o Banco Central , é com você.

Por Admin ·

O rumo para Selic em um dígito

A dívida pública está numa trajetória muito ruim. O déficit primário é cerca de 0,5% do PIB. A conta de juros reais está por volta de 6% do PIB. Precisa cair pela metade, pelo menos.

Muitos dizem que ajustar o fiscal ajuda a colocar a dívida pública numa trajetória sustentável e que é preciso caminhar na direção de gerar superávit. Eu estou de acordo, isso até ajuda a reduzir os juros, mas está longe de ser suficiente.

Outros dizem que o Banco Central pode simplesmente cortar os juros. Isso foi tentado no governo de Dilma Rousseff e deu muito errado. Os juros estavam —e estão— altos por um motivo.

Para derrubar os juros, você vai ter que cortar crédito. O BNDES dá crédito às empresas e, por meio de programas como o Peac (Programa Emergencial de Acesso a Crédito), fornece garantias para empréstimos dos bancos. Esse crédito direcionado aumentou demais nos últimos anos. O Crédito do Trabalhador (o consignado de quem é CLT, lançado em março de 2025) originou R$ 100 bilhões em empréstimos só no primeiro ano de existência. O montante de recursos anunciado pelo Plano Safra tem aumentado muito a cada ano.

As iniciativas do governo vão com força na direção de expandir o crédito.

Enquanto isso, o Banco Central coloca os juros nas alturas com o objetivo de segurar o crédito.

Isso ocorre porque o BC controla a inflação justamente controlando a quantidade de crédito na economia e maneja as taxas de juros para isso.

Simplificando o argumento, funciona assim: há uma quantidade de crédito total na economia que não gera inflação (essa quantidade varia com as condições econômicas). Se o governo expande o crédito, o Banco Central tem que contrabalançar, aumentando os juros.

É hora de fincar os dois pés no freio. Minguar o BNDES. Reduzir os subsídios do crédito agrícola. Reduzir o teto do consignado —especialmente do Crédito do Trabalhador. Não tem mais desenrola. Nem bets.

Quanto mais o governo segurar o crédito, mais o BC poderá soltar, reduzindo a Selic , sem afetar a inflação.

Dá para ver esse efeito por outro ângulo: parte do dinheiro que deixará de ser emprestado por causa das medidas de restrição a crédito do governo virará demanda por títulos públicos, derrubando as taxas de juros.

Neste século, o Brasil quase sempre conviveu com juros reais muito altos. Há, porém, uma exceção importante: em 2018 e 2019, tínhamos juros baixos com inflação estável (em 2020 também, mas aí tinha a pandemia, não conta).

Os juros desabaram a partir de 2017 sem aumentar a inflação. Não foi com solução mágica. Não foi com um enorme ajuste fiscal. Foi com política monetária bem ortodoxa e uma grande redução do crédito direcionado —os desembolsos do BNDES se reduziram muito.

Lula, escolha esse caminho, e a gente fechará 2028 com a Selic em um dígito e em queda.

O ano de 2027 não vai ser fácil. Quem perder acesso a crédito vai sofrer e reclamar. Outros vão ganhar acesso a crédito —porque a taxa Selic cairá—, mas isso vai demorar um pouco.

Em 2028, porém, o povo vai ficar feliz. E, em 2029 e 2030, com a macroeconomia em ordem, você vai ter mais recursos para programas sociais.