Na semana seguinte à vitória de Lula, começaram a circular em grupos bolsonaristas do WhatsApp listas de comércios e profissionais a serem boicotados por supostamente terem votado no PT. A candidata a vice na chapa do PT em 2018, Manuela D´avila, comparou tal ato aos boicotes nazistas a judeus na década de 1930.
Manuela se esquece do histórico recente de boicote das esquerdas. Em 2020, a CUT, maior central sindical do país, pediu o boicote de "empresas ligadas a Bolsonaro" e listou: Havan, Riachuelo, Madero, Coco Bambu, Smart Fit e Centauro. A Ypê foi cancelada em 2022 por doar dinheiro para a campanha de Bolsonaro. Em 2023, Fernando Haddad defendeu a prática no Fórum Econômico Mundial: "Eu não compro nem um palito de fósforo que não tenha compromisso com essas questões [democráticas]. Até como consumidores nós temos condição de pressionar". Já em 2024, José Genoíno, ex-presidente nacional do PT, disse achar "interessante" fazer um boicote "em relação a determinadas empresas de judeus" como forma de criticar o Estado de Israel. Teriam sido esses petistas também nazistas em potencial?
Hoje em dia nada acaba no primeiro golpe. Logo vem a resposta do outro lado, num jogo que se retroalimenta sempre em função de pautas canceladoras de sempre.
A polêmica desta semana foi sobre os festejos de fim de ano bancados pelas prefeituras de Recife e Fortaleza. Ambas as prefeituras haviam contratado previamente uma das principais duplas sertanejas do Brasil, Jorge & Mateus, para as festas públicas na praia. Mas uma semana antes da votação de segundo turno, o cantor Jorge apareceu ao lado de Flávio Bolsonaro, junto com vários cantores sertanejos, declarando seu voto. Em vídeo largamente divulgado , Jorge cantava uma versão de um dos maiores sucessos da dupla, "Pode chorar", de 2007: "Pode chorar/ Mas eu não voto no PT/ Pode chorar/ Você não vai me convencer".
Circulam na internet acusações de que Jorge teria debochado explicitamente do Nordeste, mas nada foi provado. Pelo que se sabe até aqui, trata-se de fake news. Segue-se o tom da campanha, em que ambos os lados fizeram fake news "do bem" .
Acuado, Jorge escreveu nas redes sociais: "Nunca fiz declarações e jamais me referiria dessa forma a uma região pela qual tenho tanto carinho, admiração e respeito. Faço esse esclarecimento em meu nome, por se tratar de uma situação relacionada a mim, e não ao Mateus". Seu parceiro Mateus não foi ao encontro com Bolsonaro. Será que Mateus não votou em Flávio? Não se sabe. E a imprensa parece pouco interessada em apurar por que várias duplas não foram completas ao evento de apoio a Flávio.
Diante da pressão das redes sociais pelo cancelamento do show de Jorge & Mateus, o prefeito de Recife, Victor Marques (PCdoB), disse na terça-feira (2): "As eleições passaram e a gente precisa respeitar e conviver com todos que pensam diferente de nós. Isso é a beleza da nossa democracia. O réveillon de Recife é extremamente plural e cabe todo mundo".