É possível que a reencarnação tenha pouco espaço na ciência atual, já que ainda não se encontrou evidências de que ela realmente exista. Mesmo assim, a ideia de nascer de novo está longe de ser estranha para muitas formas de tentar compreender o mundo.
Para certas tradições do hinduísmo e do budismo —ainda que encarem esse processo de maneiras diferentes—, o ciclo de mortes e renascimentos não é uma mera curiosidade sobre o que acontece após a morte, mas sim um elemento central na concepção da existência.
A falta de evidências não impediu que alguns pesquisadores se aventurassem em um terreno pouco comum para a ciência. Entre eles estava o psiquiatra Ian Stevenson (1918-2007), que já na década de 1960 viajava por diversos países para investigar testemunhos de supostas vidas passadas.
Seu trabalho está ligado à Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, onde há mais de seis décadas são compilados relatos tão inusitados quanto controversos: crianças que, segundo os depoimentos, contam espontaneamente detalhes que parecem corresponder à vida de pessoas já falecidas.
A Divisão de Estudos Perceptivos, que vem compilando esses relatos desde a década de 1960, formou assim o maior acervo do mundo dos chamados "casos do tipo reencarnação". E uma recente análise, publicada na revista Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice, identificou nesse acervo um padrão que fatores culturais e psicológicos não conseguiram explicar completamente.
Para se ter uma ideia do tipo de depoimentos que esse arquivo reúne, é preciso conhecer dois casos descritos pela revista Popular Mechanics.
James, um menino do estado da Louisiana, tinha pesadelos com um avião em chamas. Aos três anos, ele afirmou ter sido piloto durante a Segunda Guerra Mundial e mencionou um porta-aviões chamado Natoma Bay, além de um colega chamado Jack Larsen. Os pesquisadores relacionaram suas declarações com a biografia de James Huston Jr., um piloto cujo avião foi derrubado no Oceano Pacífico em 1945.
Outro caso é o de Ryan, um menino de quatro anos do estado de Oklahoma. Ao ver uma fotografia de Hollywood dos anos 1930, ele afirmou se reconhecer em uma das pessoas, que nem sequer aparecia nos créditos. O relato acabou sendo associado a Marty Martyn, um agente de Hollywood já falecido. Dos detalhes que o menino forneceu sobre sua suposta vida anterior, os pesquisadores conseguiram confirmar 55 com a biografia de Martyn.
O mais recente levantamento não se concentrou em determinar se esses relatos são memórias autênticas de outras vidas, mas sim investigar padrões entre os depoimentos. Para isso, uma equipe da Universidade da Virgínia, liderada pela pesquisadora em neurociência cognitiva Saeedeh Sadeghi, examinou 1.678 casos que tinham algo em comum: em todos eles, os pesquisadores haviam identificado possíveis correspondências entre o que uma criança contava e a biografia de uma pessoa já falecida.
Uma das questões levantadas foi quanto tempo separava os dois eventos: o falecimento da pessoa identificada e o nascimento da criança —o que, nessa área, é conhecido como "tempo de intervalo". Segundo a Popular Mechanics, havia informações suficientes para calculá-lo em 1.319 casos: a média foi de 16 meses, embora o intervalo mais longo registrado tenha chegado a 150 anos.