O ódio precisa ser civilizado

A humanidade odeia e, em determinadas circunstâncias, parece gostar de odiar. O ódio produz excitação, identidade e pertencimento. O inimigo organiza o mundo, estabelece fronteiras e oferece uma resposta sedutora à pergunta sobre quem somos: aqueles que não sã

Por Admin ·

O ódio precisa ser civilizado

O primatólogo Robert Sapolsky mostra que a divisão entre "nós" e "eles" se apoia em processos cerebrais rápidos, anteriores à elaboração consciente. Por um olhar evolucionista, reconhecer aliados e ameaças favoreceu a sobrevivência. O ódio pode ainda mobilizar circuitos associados à recompensa quando a derrota ou humilhação do adversário é experimentada como vitória do próprio grupo. Predisposição, porém, não é destino.

A pensadora Hannah Arendt percebeu a dimensão política desse fenômeno ao estudar o totalitarismo. Solidão, desenraizamento e perda de um mundo compartilhado favorecem pertencimentos que oferecem identidade e uma explicação total da realidade. O inimigo adquire uma função: confere coesão ao grupo e sentido ao ressentimento.

Na raiz do ódio encontramos, frequentemente, o medo. O historiador Jean Delumeau mostrou como sociedades deram nomes e rostos aos seus temores: estrangeiros, hereges, bruxas, epidemias. O medo pertence à experiência humana, mas seu objeto pode ser socialmente construído. Dar um rosto àquilo que tememos encurta a distância entre angústia e perseguição.

A moral tampouco nos protege necessariamente. O psicólogo social Jonathan Haidt demonstrou o peso das intuições e emoções nos julgamentos morais. Muitas vezes sentimos primeiro e argumentamos depois. A razão, em vez de examinar nossas convicções, pode tornar-se advogada delas. Quem odeia pode construir uma moral internamente coerente na qual excluir, humilhar ou agredir se transforma em dever. O outro passa a ameaçar o bem, a família, a pátria, a religião ou a identidade. O ódio recebe uma autorização moral.