O duelo dramático entre Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta em 'Boa Noite, Mãe'

Com a frieza de quem já tomou uma decisão irrevogável, Jessie anuncia à mãe que não estará mais ali quando o dia amanhecer. E, a partir daí, a sala do teatro mergulha numa contagem regressiva implacável. Sob a direção precisa de Leonardo Ne

Por Admin ·

O duelo dramático entre Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta em 'Boa Noite, Mãe'

Com a frieza de quem já tomou uma decisão irrevogável, Jessie anuncia à mãe que não estará mais ali quando o dia amanhecer. E, a partir daí, a sala do teatro mergulha numa contagem regressiva implacável. Sob a direção precisa de Leonardo Netto, "Boa Noite, Mãe" abandona concessões sentimentais para transformar o texto de Marsha Norman num embate em tempo real, sem elipses que aliviam a tensão ou reviravoltas que ofereçam respiro.

O desfecho está posto na mesa desde o primeiro instante, e o verdadeiro impacto da peça está em acompanhar o desgaste definitivo de uma relação familiar ao longo de pouco mais de uma hora de conversa aparentemente comum.

O espetáculo se sustenta inteiramente sobre o duelo interpretativo entre Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta , que constroem uma dinâmica de escuta mútua quase magnética. Cada inflexão de voz, vacilo corporal ou respiração suspensa encontra eco imediato na parceira de cena, elevando o impacto dramático sem jamais resvalar no histerismo.

Andréia Horta compõe Jessie com sobriedade e precisão, evitando tanto a impassibilidade tediosa quanto a vitimização. Existe vivacidade e frescor em cada réplica: a firmeza de sua atuação traduz tanto a exaustão física provocada por anos de crises severas de epilepsia quanto o peso de um divórcio e de um filho entregue ao crime.

Há uma dignidade na maneira como ela limpa bancadas e organiza os mantimentos para a mãe que vai deixar para trás. Jessie não pede socorro nem busca validação —ela apenas exerce o único resquício de autonomia que lhe restou após uma vida inteira tutelada por terceiros.

No outro lado, Ana Beatriz Nogueira demonstra domínio técnico absoluto ao conduzir Thelma pela rota tortuosa do desespero materno. A atriz vai da zombaria inicial, quando julga que o anúncio da filha não passa de uma provocação de mau gosto, para o pavor paralisante de quem vê ruir qualquer chance de controle.

Nogueira trabalha com um fraseado contínuo e orgânico, controlando a respiração mesmo nas passagens aceleradas pelo pânico, ao mesmo tempo em que pontua a dor com lampejos de um humor provinciano e cáustico.