O desafio é grande, e soluções mágicas, perigosas

Nos últimos quatro anos, a dívida bruta do governo saltou de 71,7% para 82,9% do PIB , o maior nível desde 2021, sinal de que as nossas regras fiscais não foram capazes de dar previsibilidade à trajetória da dívida nem de ancorar as expecta

Por Admin ·

O desafio é grande, e soluções mágicas, perigosas

E não por acaso: os estímulos fiscais exigem juros mais altos para combater seus impactos inflacionários. Além disto, quando a dívida cresce sem perspectiva crível de estabilização, quem a financia passa a exigir retornos maiores, que encarecem seu carregamento e a fazem crescer ainda mais. Apostar na queda dos juros sem o ajuste que a viabilizaria é tomar a consequência como premissa. Daí a tentação de acreditar em soluções mágicas, que não imponham custos a ninguém. Mas essas soluções são ilusórias, e costumam deixar a conta ainda maior. Vamos a elas.

A primeira é acreditar que basta deixar o arcabouço mais rígido, mantendo o ajuste pela arrecadação. Esse caminho já foi testado: boa parte das receitas veio de ganhos pontuais, enquanto os gastos obrigatórios cresceram mais rápido do que a regra permite —e o que não coube na meta foi deixado de fora. O que sai da conta da meta não sai da conta da dívida. Sem revisão das despesas, a dívida seguirá crescendo.

A segunda é elevar a meta de inflação . A ideia de que uma meta mais alta abre espaço para juros menores é intuitiva, mas não se sustenta. Mudar a meta sinaliza que ela pode ser mudada de novo, e empresas e trabalhadores passam a reajustar preços e salários esperando mais inflação. Com expectativas mais altas, o Banco Central precisa de juros maiores, e não menores. Essa discussão já cobrou seu preço: em 2023, o simples debate sobre a meta desancorou as expectativas e adiou o início dos cortes de juros. Por que reabri-la agora, com as expectativas fora da meta e em uma conjuntura ainda mais desafiadora?