Poucas políticas públicas brasileiras são cercadas por tantos mitos e ideias equivocadas quanto o Bolsa Família. A ideia de que seus beneficiários não querem trabalhar, têm filhos para receber mais dinheiro ou vivem tranquilamente à custa do Estado se repete no debate público há décadas. Em época de eleições, essa ideia vem à tona de forma ainda mais contundente. Mas talvez essas afirmações digam mais sobre a maneira como a pobreza é percebida do que sobre o funcionamento do programa.
O suposto estímulo à ociosidade é um dos exemplos mais persistentes. Uma revisão de estudos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) concluiu que, salvo grupos específicos, os efeitos das transferências de renda sobre a oferta de trabalho são inexistentes ou muito pequenos. Outra análise do instituto mostrou que, de 2019 a 2023, período de expansão dos benefícios, a proporção de pessoas com carteira assinada cresceu, sobretudo nos domicílios mais pobres. Isso não elimina possíveis efeitos em situações particulares, mas contraria a generalização de que receber o auxílio estimula as pessoas a abandonar o emprego.
Aqui cabe outro dado importante. O número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família caiu de 21.194.184, em março de 2023, para 18.739.076, em março de 2026. Ou seja, em três anos, 2,4 milhões de famílias deixaram de ser atendidas pelo programa . É muita gente. Os dados são da Sagicad (Secretaria de Avaliação, Gestão da Informação e Cadastro Único), órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Aliás, há muitos dados importantíssimos sobre o Bolsa Família e outros programas de transferência de renda do governo federal neste link . Está tudo lá, recomendo a consulta.
Um estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), com base nos dados do Sagicad, mostra um recorte interessante dessa realidade: 60,6% dos beneficiários de 2014 deixaram o Bolsa Família até 2025. Na faixa etária de beneficiários de 11 a 14 anos, esse percentual é de 68,8%; entre os de 15 a 17 anos, de 71,2%.
Outro mito comum é que o programa estimula as pessoas a terem mais filhos, para aumentar o valor a ser recebido. Porém, em março deste ano, 92% das famílias beneficiárias tinham até quatro integrantes –número bem distante da ideia de domicílios numerosos, cheios de filhos, que dependem do programa. O maior grupo das famílias que recebem o benefício tem apenas dois integrantes (33% do total), seguido pelos domicílios com três integrantes (26%).