Há quatro anos, vivandeiras acampavam diante de quartéis, pedindo um golpe de Estado. O afastamento dos militares da política foi uma das maiores realizações do Lula 3.0.
Ele conseguiu isso porque, ao contrário de seu antecessor e de alguns çábios do mercado, não opera jogando na tensão. A vitória de Lula foi um poderoso sinal de que, em quatro anos, ele recolocou o Brasil no caminho da normalidade. Até Donald Trump e presidentes latino-americanos deram-se conta disso.
Noutra ponta da equação, o remédio aplicado aos envolvidos na trama golpista e no vandalismo do 8 de Janeiro mostrou-se eficaz, por dissuasório.
Lula vai abraçar alguma agenda da lei e da ordem e fará algum ajuste nas despesas públicas. Afinal, ele gastou para ganhar a eleição e ganhou-a. A partir de domingo, sai de campo o palanqueiro e volta a metamorfose ambulante.
Quem não vai aparecer é um Lula que acredita numa lenda que agrada à Faria Lima: quem recebe Bolsa Família não quer trabalhar.
A pobreza ensinou-lhe que pobre quer trabalhar e, se possível, empreender.
O ex-presidente José Sarney gosta de contar a história de um deputado estadual que vinha votando contra o governo e foi chamado ao palácio. O governador foi direto: "Se o senhor quer continuar votando assim, é melhor que vá para a oposição".
O rebelde acalmou-se, pedindo-lhe que não o submetesse a semelhante provação.
A oposição fez grandes bancadas na Câmara e no Senado em alguns casos, os parlamentares representam eleitores conservadores, como a bancada do agro. Supor que esses senadores e deputados cheguem a Brasília pintados para a guerra é uma ilusão. A metamorfose ambulante cuidará disso, como cuidou do atual Congresso, sem maiores contratempos. A única lombada deu-se na indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal, mas isso se deveu mais ao salto alto do Planalto do que a uma divergência doutrinária.
Em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez, temia-se uma onda radical. Ele colocou Antonio Palocci no Ministério da Fazenda e fez a paz com a banca. Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor no Planalto, avisava: "Lula não é de esquerda". (Há poucos meses Lula repetiu isso para a diretora do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva.)
A trégua que se dá aos vencidos está deixando para depois o balanço do peso dos Bolsonaro no conjunto da oposição. Perderam duas eleições presidenciais. Lula perdeu três (1989, 1994 e 1998), mas sua liderança no PT era diferente da que Bolsonaro exerce no PL . Para começar a conversa, Lula não é dinástico.
Além disso, em 2030 a oposição terá na agulha a bala de Tarcísio de Freitas , com um currículo inédito: quatro anos como ministro da Infraestrutura e oito como governador de São Paulo.
O resultado de domingo poderá libertar Tarcísio de Freitas do voto de silêncio presidencial.
O Brasil voltou ao normal
Para quem se lembra do pesadelo vivido pelo Brasil há quatro anos, a decisão de Flávio Bolsonaro de desistir de batalhar pela anulação do pleito foi um alívio. Sinal de que a direita, derrotada por uma margem de 4 milhões de votos, decidiu aquietar-se nos Esta