Os juros dos títulos públicos de dez anos na França chegaram a superar 5%, pela primeira vez desde 2002, e o prêmio sobre os papéis alemães passou de 1,6 ponto percentual, o maior desde a crise do euro de 2011. A dívida deve alcançar 121,7% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2027, com déficit projetado de 5%. Uma economia desenvolvida começou a pagar pela paralisia política antes de perder o acesso ao financiamento de mercado.
O caso ajuda a organizar a experiência internacional. Ajustes fiscais diferem pelo tamanho, pela composição e pelas circunstâncias. Há correções impostas pela interrupção do financiamento, programas sob assistência externa, respostas a choques de credibilidade e ajustes preventivos. Os números não são diretamente comparáveis, mas revelam a escala da correção e o grau de liberdade disponível. Ao Brasil interessa a última categoria.
A Grécia representa o primeiro tipo. Após perder o acesso aos mercados em 2010, atravessou três programas de assistência, os dois primeiros com o FMI. O saldo primário ajustado ao ciclo melhorou 17 pontos do PIB entre 2010 e 2013, enquanto o PIB caiu cerca de um quarto e o desemprego chegou a 27%. O tamanho refletiu a escassez de alternativas, e não uma ambição reformista.
Portugal também recorreu à assistência europeia e ao FMI. Entre 2010 e 2014, o ajuste primário estrutural alcançou 8,7 pontos do PIB, quase metade por aumento de receitas. Houve recessão, mas o país recuperou antes o acesso ao mercado e a autonomia.
A Argentina acrescenta outra modalidade. Em 2024, o governo Milei realizou ajuste de cerca de 5% do PIB, concentrado nas despesas, e transformou o déficit primário em superávit. O desenho foi doméstico, embora o país ainda estivesse formalmente sob o programa do FMI de 2022, sucedido por novo acordo em 2025. A rápida desinflação mostrou a potência da correção; a queda da atividade e a erosão inflacionária de aposentadorias e salários evidenciaram o seu custo.