O adeus a Dadá Figueiredo, a voz da contracultura que radicalizou o surfe

28/10/2026 07h22 Atualizado 28/10/2026 11h18 O surfe brasileiro perdeu uma de suas figuras mais marcantes e irreverentes. Dadá Figueiredo morreu no último sábado, aos 61 anos, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Ele deixa três

Por Admin ·

O adeus a Dadá Figueiredo, a voz da contracultura que radicalizou o surfe

28/10/2026 07h22 Atualizado 28/10/2026 11h18

O surfe brasileiro perdeu uma de suas figuras mais marcantes e irreverentes. Dadá Figueiredo morreu no último sábado, aos 61 anos, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Ele deixa três filhos — entre os quais o surfista Dávio Figueiredo. O velório será realizado hoje, no Cemitério do Caju.

Lamentada publicamente pela Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro (Feserj) e por nomes de diversas gerações, sua partida deixa um legado insubstituível. Dadá provou que a originalidade, a arte do shape e a liberdade de expressão eram tão vitais para o surfe quanto as pontuações dos juízes, sintetizando sua própria jornada em uma máxima simples:

“O negócio é viver a vida... cada um tem um estilo e é preciso respeitar”.

Nascido no Rio de Janeiro e criado no subúrbio da Tijuca, Dávio Correia Figueiredo teve seu primeiro contato com as ondas ainda criança, na Barra da Tijuca, usando uma prancha de isopor comprada pela mãe num supermercado. A distância do litoral o fez adotar o skate como meio de transporte no asfalto carioca — uma vivência urbana que acabou por transformar a própria dinâmica do surfe nacional. Ao aplicar nas ondas os movimentos agressivos e as rabiadas aprendidas no asfalto, Dadá antecipou tendências e desenvolveu um estilo progressivo que abriu caminho para as gerações futuras.

A genialidade de sua abordagem vanguardista foi destacada até mesmo por lendas contemporâneas do esporte. O pioneiro do surfe brasileiro Rico de Souza relembrou o impacto imediato de Dadá nas praias cariocas:

— Quando o conheci, logo vi que era único. Apesar de não competir com ele, vi naquele jovem um estilo radical e inovador. Ele foi o primeiro a trazer a pegada do skate para as ondas e isso marcou o Rio — contou ao GLOBO.

Enquanto a cena do surfe da época era dominada pela estética “paz e amor” e pelas cores vibrantes do reggae, Dadá rompeu com todos os padrões visuais e comportamentais. Usava roupas pretas, ostentava cabelo moicano, tocava baixo na banda de hardcore Os Normais e criou marcas alternativas lendárias, como a Anti-Fashion e a Necrose Social.

Dentro d’água, teve conquistas expressivas: após ser 14º na edição de estreia do Circuito Brasileiro de Surf Profissional, em 1987, foi campeão carioca em 1989 e eleito o melhor freesurfer do país em 1993.

Destacou-se pela postura política firme, marcando época no episódio do Staff Poll de 1985, célebre evento de premiação do surfe brasileiro, ao protestar publicamente contra a exploração dos atletas pelos empresários da modalidade.

Com o passar dos anos, Dadá passou a olhar criticamente para a rotina engessada dos campeonatos, apontando que a verdadeira essência da inovação havia migrado para fora das baterias: “Os caras do freesurf é que estão inovando. Têm essa liberdade de inovar. Não aguento mais ficar vendo bateria, é muito chato. Esse negócio de palanque, bateria, campeonato”, relatava aos amigos próximos.

Sua sinceridade desconcertante e sem filtros era a mesma ao recordar encontros com ícones globais da modalidade. Ao falar sobre quando conheceu o multicampeão Kelly Slater no Havaí, resumiu com a habitual irreverência: “A primeira vez que eu vi o Slater foi em Off The Wall, ele estava caindo do meu lado, era um molequinho e eu não achei nada demais. Era um bom surfista, mas não fiquei impressionado”, contou.

A trajetória de Dadá também foi atravessada por episódios dramáticos. Ele sobreviveu a um ataque violento em 1990, no qual levou 12 facadas, e enfrentou anos difíceis na luta contra a dependência química. Mais tarde, encontrou um novo rumo pessoal ao se tornar pastor evangélico e manteve a paixão pelo mar como shaper e professor, fundando uma escola de surfe na Barra.

Ao olhar para a nova geração, especialmente para seu filho Dávio Figueiredo, que seguiu seus passos nas ondas, Dadá ponderava sobre os desafios de se viver do esporte em tempos de hiperprofissionalização: “Hoje em dia, não está mais assim, o negócio é mais profissional. Eu não pensava em nada, corria os campeonatos e nem ligava, pois meu negócio era surfar”.

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