Teve homem branco conduzindo homem negro acorrentado (vestido de vermelho e carregando um tridente) durante uma manifestação da extrema direita no RJ. Além da clara associação com a escravização, será que se tratava também de uma alusão a Exu, orixá de matriz africana?
Teve parlamentar branca estalando chicote rua afora para comemorar a vitória eleitoral, em SC. Até os mais distraídos são capazes de associar essa atitude aos castigos físicos impingidos aos negros escravizados durante séculos.
Contudo, o exemplo mais revelador diz respeito à PEC (proposta de emenda constitucional) que reduz a maioridade penal. Para espanto de muita gente (o que me inclui), a iniciativa foi defendida pela oposição e pela situação na corrida à Presidência da República.
Como se sabe, a esmagadora maioria dos adolescentes que se encontram no sistema socioeducativo brasileiro é negra, pobre, vive em situação de vulnerabilidade social e tem baixa escolaridade. Essa combinação os deixa mais expostos à violência e à criminalidade, o que torna evidente o impacto de natureza étnico-racial da PEC em questão.
E nada indica que reduzir a maioridade penal implica queda da criminalidade ou aumento da segurança pública. A criminalidade juvenil representa uma fração bem pequena dos crimes cometidos no país. Adolescentes respondem por menos de 1% dos crimes e por 0,5% dos homicídios e tentativas de homicídio no Brasil (Instituto Sou da Paz).
Para piorar, a inserção de adolescentes no sistema penitenciário junto de adultos facilitaria o recrutamento de menores por facções criminosas. Concluo pedindo que Nossa Senhora Aparecida, uma santa preta, padroeira do Brasil, que também não foi poupada durante a eleição , rogue por nós.