No Dia da Democracia, defendê-la nas urnas será nossa única opção

Em 1975, quando eu tinha 9 anos, meu pai, Vladimir Herzog , foi assassinado no Doi-Codi , em São Paulo. Trago imagens do dia anterior, quando fui com minha mãe, Clarice, e meu irmão, André, até a Redação da TV Cultura, onde meu pai dirigia

Por Admin ·

No Dia da Democracia, defendê-la nas urnas será nossa única opção

Em 1975, quando eu tinha 9 anos, meu pai, Vladimir Herzog , foi assassinado no Doi-Codi , em São Paulo. Trago imagens do dia anterior, quando fui com minha mãe, Clarice, e meu irmão, André, até a Redação da TV Cultura, onde meu pai dirigia o Departamento de Jornalismo. Para mim, aquele era um dia comum e eu esperava passar os dias seguintes no interior paulista com a minha família. Mas, em 26 de outubro, um dia após o crime, minha mãe nos contou sobre a morte de nosso pai.

Em 31 de outubro, a Catedral da Sé recebeu um culto ecumênico em memória do meu pai. A iniciativa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo teve o apoio imediato de Dom Paulo Evaristo Arns . Mais de 8.000 pessoas, em silêncio, foram e voltaram para suas casas. A lembrança mais forte que guardo daquele ato é o acolhimento de Dom Paulo à minha mãe, que chorava muito.

Com o tempo, entendemos que essa não era uma luta apenas da nossa família. Era do nosso povo e do nosso país e, juntos, conseguimos impedir que a memória fosse apagada. Os assassinos do meu pai não mataram a nossa memória e jamais conseguirão fazê-lo.

Votei para presidente pela primeira vez em 1989. Por muito tempo, a dificuldade estava em escolher entre propostas. Já em 2018, a escolha passou a ser entre manter a democracia ou eleger alguém que a despreza. Em 2022, ganhamos com resultado apertado, mas o 8 de Janeiro mostrou o quanto chegamos perto de uma ruptura.

A condenação dos militares, pela primeira vez na nossa história política, nos trouxe um alento para a sociedade e para pessoas que, como eu, carregam cicatrizes profundas da violência de Estado. Uma luta jamais abandonada, mas que nos trouxe sempre um intenso desgaste emocional.