O repórter do jornal The New York Times , Kellen Browning, apurou os fatos para responder a essa pergunta na semana passada. Por meio de entrevistas, documentos e mensagens de texto, Kellen confirmou que operadores políticos alinhados à campanha democrata de Mary Peltola para o Senado recrutaram outro candidato, Dan J. Sullivan, para concorrer como republicano na disputa pelo Senado e tentar tirar votos do republicano em exercício, Dan S. Sullivan.
Desde que a matéria foi publicada na quarta-feira (28), os leitores têm perguntado por que o jornal dedicou uma longa investigação a esse caso de "manipulação de cédulas", uma estratégia considerada legal que tem sido usada tanto por democratas quanto por republicanos . Alguns questionaram o momento da publicação, menos de uma semana antes do dia da eleição, e as entrevistas com uma fonte que poderia ter alguma queixa contra a campanha de Peltola e que, posteriormente, tentou retratar suas declarações.
O jornal conversou sobre essas questões com Browning, que vem cobrindo as campanhas para as eleições de meio de mandato, e com Amy Gardner, editora-adjunta da editoria de Política. Elas também detalharam algumas das regras que orientam o relacionamento do jornal com as fontes e explicaram por que é importante deixar que os leitores sejam os juízes. Esta conversa foi editada.
Kellen, você tem feito a cobertura da eleição para o Senado do Alasca, que é fundamental para o controle da Câmara. Põe a gente a par da disputa. KELLEN BROWNING: Venho cobrindo essa disputa desde que Mary Peltola anunciou, em janeiro, que desafiaria o senador Dan Sullivan , mas minha cobertura realmente ganhou força neste verão quando outro Dan Sullivan —Dan J. Sullivan— transformou isso em uma história bastante fascinante. Escrevi sobre a disputa jurídica para saber se ele poderia permanecer na cédula eleitoral e, em agosto, voei para o Alasca para entrevistá-lo sobre suas motivações para concorrer e se alguém o havia convencido a entrar na disputa. (Ele disse que ninguém o havia convencido.)
Em setembro, após semanas investigando a demissão inesperada de alguns assessores seniores, publiquei um artigo sobre as alegações de que Peltola teria maltratado e abusado verbalmente de sua equipe ao longo de muitos anos. Uma das assessoras demitidas havia sido a coordenadora de campanha de Peltola. Ela acabou compartilhando comigo detalhes importantes sobre os esforços do Partido Democrata para recrutar candidatos para a cédula do Senado, o que nos leva à situação atual.
Os leitores nos perguntaram sobre o momento em que conduzimos nossa investigação sobre o plano dos democratas de manipular a cédula eleitoral do Alasca —especificamente, por que publicamos a matéria tão perto do dia da eleição. Alguns leitores acusaram o jornal de fabricar uma "surpresa de outubro" para influenciar a disputa. Por que publicamos esse artigo naquele momento? AMY GARDNER: Gostaria de dizer algumas coisas a esse respeito. Primeiro, publicamos a matéria assim que a confirmamos. Era uma história complicada. Nossa reportagem começou de fato em setembro, após a publicação do artigo de Kellen sobre o estilo de gestão de Peltola. Kellen e outros jornalistas do The New York Times levaram semanas para investigar cada nova pista e confirmar os fatos importantes com várias fontes.
E, segundo, uma vez que a matéria estivesse confirmada, não publicá-la teria sido um ato ainda mais evidente de influenciar o resultado dessa eleição . Publicar o que sabíamos e deixar que os leitores decidissem o que achavam de tudo isso era a única opção ética.
BROWNING: Eu estava correndo contra o tempo para cobrir essa matéria. Queríamos publicar o mais rápido possível, mas o mais importante era garantir que verificássemos todos os fatos que estávamos incluindo. Isso leva tempo. Na minha opinião, devemos divulgar os fatos e deixar que os leitores decidam se eles são significativos para eles. Alguns eleitores no Alasca podem decidir que isso deve influenciar seu voto, e outros podem dizer que isso não importa para eles. Como repórter, não tenho um lado nessa disputa —só quero que as pessoas estejam informadas sobre o que está acontecendo nela.
A prática de "acúmulo de cédulas" (ou ballot-stacking) é geralmente considerada legal. Os republicanos já utilizaram essa tática no Alasca. O que havia de noticiável nessa iniciativa que levou o jornal a escrever uma matéria? GARDNER: Não é inédito que campanhas ou grandes partidos indiquem candidatos-isca com o mesmo nome de um candidato de um dos principais partidos. Mas isso é raro, e foi isso que tornou a candidatura de Dan J. Sullivan incomum. Também escrevemos extensivamente sobre outras tentativas de "ballot-stacking" por ambos os partidos —inclusive no Alasca este ano. A candidatura de Dan J. Sullivan também se tornou um assunto de interesse no mundo político do Alasca e além, e surgiram questionamentos uma vez que ele mal fez campanha. Há também o fato de que a campanha de Peltola negou isso tão veementemente por tanto tempo. Isso acabou tornando a história ainda mais importante.
Uma fonte fundamental na matéria é Elisa Rios, ex-coordenadora de campanha de Peltola. Ela contou a você detalhes sobre a operação de manipulação de votos. Como foram suas conversas iniciais? BROWNING: Deixei claro para ela que era importante que os leitores —e os habitantes do Alasca— soubessem o que estava acontecendo nessa disputa . E ela concordou. Também deixei claro que o jornal lida com esse tipo de matéria com cautela, certificando-se de investigar todas as acusações e buscar evidências para comprová-las.
Rios havia sido demitida da campanha de Peltola. Como ela poderia ter motivos pessoais, como você a considerou uma fonte confiável e como verificou as informações dela para garantir sua precisão? BROWNING: Levamos em conta as possíveis motivações das fontes. Rios também estava se preparando para, possivelmente, entrar com uma ação por demissão sem justa causa contra a campanha de Peltola, como observamos no artigo. Portanto, fica claro que ela não estava satisfeita com eles. Mas conversamos longamente, e ela deixou claro que não tinha todas as respostas e só poderia me contar o que sabia e havia observado, em vez de fazer suposições. E tínhamos muitas evidências para corroborar o que ela nos contou. Apresentamos uma lista detalhada de nossa reportagem à campanha de Peltola e ao Comitê Democrata de Campanha para o Senado, e eles não forneceram nenhuma explicação sobre nada disso.
GARDNER: Corroboramos os fatos centrais que Rios nos contou sobre a tentativa de manipulação de votos. Conforme documentado na reportagem, obtivemos dezenas de mensagens de texto mostrando assessores seniores da campanha e operadores nacionais do Partido Democrata conversando sobre o plano. Conversamos com outros candidatos em potencial que os democratas tentaram recrutar de maneiras semelhantes às que usaram com Dan J. Sullivan.
Rios tentou se retratar das entrevistas oficiais que concedeu a nós, mas nós as utilizamos. Como lidamos com um pedido como esse? GARDNER: Kellen havia conduzido várias entrevistas com Rios ao longo de semanas. Como costuma acontecer nas interações do jornal com fontes, nunca houve um acordo entre eles de que ela tivesse a opção de se retratar. Ela falava conosco nessas entrevistas com o entendimento de que usaríamos o material. Outro ponto: os termos do acordo são importantes aqui, mas a identidade da fonte também o é. Por exemplo, se tivéssemos conversado com um aposentado que nunca esteve envolvido em política, e a pessoa não tivesse entendido que estava falando oficialmente e quisesse voltar atrás, esse seria um cenário diferente de conversar com uma profissional da política que é coordenadora de campanha para uma disputa pelo Senado dos EUA , como era o caso de Rios.
Quando Kellen recebeu a notificação de Rios de que ela estava retirando suas declarações das entrevistas, tivemos várias discussões com os editores de padrões do jornal, editores seniores e o vice-conselheiro geral do The New York Times e concluímos que não concordaríamos em alterar os termos. Kellen transmitiu isso a Rios antes de publicarmos.