Nas ruas de Assunção, encontrar um apoiador de Santiago Peña é tarefa difícil

Foi mais fácil encontrar uma loja de açaí em diferentes bairros da capital paraguaia do que entrevistar um apoiador do político do ex-presidente Santiago Peña na semana em que o estouro do escândalo do Ueno Bank colocou o político do Partid

Por Admin ·

Nas ruas de Assunção, encontrar um apoiador de Santiago Peña é tarefa difícil

Após a tentativa frustrada de renúncia do economista, o Congresso do Paraguai negou o pedido de Peña para prorrogar sua defesa e aprovou seu impeachment nesta sexta-feira (6) .

Do lado de fora do palácio, de cuja escadaria é possível ver a torre do palácio de Lopez, a sede da Presidência, grupos de policiais se apressavam para montar barreiras e isolar manifestantes, evitando confrontos.

Protesto havia, mas apenas de um lado. Ao contrário de outras experiências políticas recentes que dividem as sociedades do continente entre a favor e contra , só havia no centro de Assunção manifestantes que pediam a cabeça de Peña.

O tecnocrata colocado no comando do Executivo pelo poderoso Horacio Cartes e que teve seu destino selado após romper com o padrinho não era particularmente impopular.

Em um ranking de junho da CB Global Data, ele aparecia em quinto lugar entre 18 líderes da América Latina avaliados, depois de Nayib Bukele ( El Salvador ), Claudia Sheinbaum ( México ), Laura Fernández ( Costa Rica ) e Luis Abinader ( República Dominicana ), mas à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sexto. Mas Peña acabou comprando uma briga com os apoiadores e críticos do poderoso ex-presidente.

"É que ele mesmo não tem tanta personalidade, existe por causa de Cartes, traiu o ex-presidente ao achar que poderia criar um campo político próprio —o resultado está aí", diz o motorista Luiz Fernando Acce, 32, morador do bairro de Chacarita, uma parte empobrecida colada à Catedral de Assunção.

"E como não tinha nada tão marcante para apresentar, colou nele o escândalo do Ueno Bank, todo mundo sabia que ele tinha sido sócio e que tinha algo estranho no desempenho daquele banco, mas a gente ignorou os sinais", conta Acce, ele mesmo um dos afetados pelo caso e que ainda não conseguiu recuperar o dinheiro.

Um vendedor de erva-mate perto da antiga estação de trens da cidade é quem chega mais perto de elogiar Peña, dizendo lamentar que um político jovem [de 47 anos] não tenha conseguido romper com o que considera pior na política local.

Peña era esperado no Congresso para fazer a sua defesa, contaria com batedores para fechar o trânsito da praça dos Desaparecidos, passando pela rua O Paraguaio Independente e chegando ao lado direito do prédio do Legislativo, em uma operação que modificou o tráfego do que foi o centro colonial de Assunção.

Do outro lado, na praça que abraça a parte esquerda da sede do Legislativo, além de correntistas do Ueno, estudantes da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nacional aderiram aos protestos, que foram ativados desde a última terça-feira (3) no país, em meio à agitação política e econômica causada pelo escândalo.

"Como estudantes universitários e futuros profissionais de saúde, reconhecemos nossa responsabilidade social e reafirmamos nosso compromisso com a defesa dos direitos dos cidadãos, da democracia, da justiça e do bem-estar da população paraguaia", diz parte de um comunicado divulgado pelo grupo.

Aos estudantes se somaram professores e líderes de associações de aposentados —prejudicados ou não pelo caso Ueno, vestidos com camisas da seleção paraguaia e entoando palavras de ordem, enquanto eram observados pela polícia.

"É um momento ruim para a direita do nosso continente, tirar Peña vai ser a nossa contribuição. O problema do nosso país é que o Partido Colorado já está tão agarrado ao poder, que ninguém imagina um governo do Paraguai sem ele, mas talvez seja preciso", diz o aposentado Octavio Birnes, 72.