Nas guerras pós-outubro de 2023, estratégia de

26/10/2026 00h00 Atualizado 26/10/2026 00h30 Nas urnas para mais um referendo sobre seu governo, o premier Benjamin Netanyahu se apresenta aos eleitores como o único capaz de garantir a integridade de Israel diante de uma crescente lista d

Por Admin ·

Nas guerras pós-outubro de 2023, estratégia de

26/10/2026 00h00 Atualizado 26/10/2026 00h30

Nas urnas para mais um referendo sobre seu governo, o premier Benjamin Netanyahu se apresenta aos eleitores como o único capaz de garantir a integridade de Israel diante de uma crescente lista de inimigos, do Hamas em Gaza até o Irã . Na campanha, Netanyahu e seus aliados defenderam as recentes guerras e políticas adotadas nos Territórios Ocupados Palestinos e no sul do Líbano , conhecidas como de "terra arrasada ". Sob a premissa de garantir "zonas de segurança" perto das fronteiras, cidades e vilas inteiras foram arrasadas desde os ataques de Outubro de 2023, em um modus operandi que parece de vez integrado à doutrina militar israelense.

— A destruição deliberada de moradias faz parte da guerra desde que a guerra existe — destacou ao GLOBO Bree Akesson, professora da Faculdade de Serviço Social da Universidade Wilfrid Laurier. — O que me preocupa é que isso esteja sendo normalizado, o que é ainda mais perigoso. Hoje se fala em “destruição de estruturas”, mas a maior parte delas é de casas de famílias. Minhas pesquisas mostram que, para muitos, perder a casa pode ser como perder um membro da família.

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Em Gaza, invadida e bombardeada após os ataques que deixaram 1,2 mil mortos em Israel, a ONU aponta que 82% das estruturas em Gaza — que incluem, como Akesson pontua, milhares de unidades habitacionais — foram danificadas, e muitas delas hoje não passam de ruínas. Estimativas mostram que 90% das instalações de água e esgoto foram inutilizadas , e os dejetos in natura lançados ao mar afetou até as usinas de dessalinização usadas por Israel para fornecer água a seus cidadãos. As hordas de ratos espalham doenças e atacam crianças em campos de refugiados.

— Vejo constantemente ratos, lixo e esgoto ao meu redor — declarou Shurouq, funcionário da ONG Save the Children em Gaza, em declarações à imprensa. — Temo pela saúde da minha filha vivendo nessas condições. Isso me causa arrepios; não é maneira de levar uma vida digna.

Em fevereiro, Balakrishnan Rajagopal, relator especial da ONU sobre moradia adequada, defendeu, citando o caso de Gaza, que os países reconheçam o domicídio, a “destruição sistemática de moradias durante conflitos”, seja tratado como um crime de guerra dentro do direito internacional. Até agora, sem sucesso.

— O domicídio é um ataque à identidade coletiva de um povo. Muitas vezes, é exatamente por isso que ele é utilizado — diz Akesson, uma das autoras de “Da Burocracia às Balas: Domicídio Extremo e o Direito ao Lar” (sem edição no Brasil). — O lar é muito mais do que uma estrutura física. Ele abriga a história de uma família, suas memórias e suas esperanças para o futuro. Estudiosos descrevem o lar como algo que existe em diversas escalas, desde a própria casa até o bairro e o Estado-nação.

Desde outubro do ano passado, há um cessar-fogo em vigor, quebrado diariamente por combates e bombardeios. Hoje, 70% do território do enclave estão sob ocupação militar, proibidos aos civis, e são crescentes os pedidos pelo retorno dos assentamentos judaicos. Uma recente atualização do serviço Google Earth, com imagens de satélite feitas em fevereiro, permitiu a comparação brutal com os dias pré-guerra .

— O 7 de Outubro provocou um choque e um trauma imensos em muitos estrategistas israelenses, incluindo aqueles que defendiam abertamente a doutrina de "aparar a grama”, levando-os à conclusão de que haviam sido brandos demais e não tinham ido longe o suficiente — destacou ao GLOBO Amjad Iraqi, analista do centro de pesquisas Crisis Group.— Eles perceberam que não bastava apenas aparar, era preciso queimar a grama, queimar o gramado por completo.

O premier Benjamin Netanyahu, que há três anos prometeu erradicar o Hamas, garante que suas Forças Armadas são “as mais morais do mundo”, afirmando que a maior parte dos mortos era de militantes, rejeitando as alegações de que está regulando a entrada de ajuda e tratando as acusações de genocídio como fantasiosas. Apesar dos argumentos, em novembro de 2024 o Tribunal Penal Internacional emitiu uma ordem de prisão contra ele e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por crimes de guerra e contra a humanidade .

— Após o 7 de outubro, líderes israelenses, não apenas Netanyahu, mas também comandantes militares sentiram que precisavam demonstrar ao público que se vingaram pelo ocorrido — diz Iraqi. — Isso incluía quaisquer outros inimigos que eles vissem pela frente: primeiro o Hamas, depois o Hezbollah , e então o "Eixo de Resistência", que também se tornou um alvo. Todos diziam abertamente que estavam ali para se vingar, para restaurar sua reputação e para mostrar às pessoas o que acontece quando se desafia Israel.

A expansão do conflito para o Líbano fez com que o trágico passado de bombardeios e confrontos retornasse ao país. Os subúrbios de Dahiyeh, quartel-general do Hezbollah, foram duramente atacados em 2024, eliminando a cúpula do grupo político-militar e matando centenas de civis. Mas o foco era o sul libanês, onde o Hezbollah mantém uma forte presença militar perto da fronteira com Israel.

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Após um cessar-fogo cenográfico violado pelos dois lados, os israelenses voltaram à carga com o início da guerra contra o Irã (aliado do Hezbollah) em fevereiro, impondo uma “zona de segurança” ao sul do rio Litani. Centenas de milhares de pessoas foram expulsas, dezenas de vilas e cidades foram arrasadas, florestas queimadas e plantações inutilizadas, repetindo o cenário desolador de Gaza e criando uma nova crise humanitária libanesa.

“À luz do direito internacional humanitário, atacar infraestruturas essenciais para a sobrevivência da população civil, como instalações de água potável e sistemas de irrigação, é estritamente proibido”, afirmou Hadi Jaafar, chefe do Departamento de Agricultura da Universidade Americana de Beirute, em declarações por e-mail ao GLOBO. “No entanto, o padrão de danos no sul do Líbano aponta para uma grave interrupção dos sistemas básicos de suporte à vida.”

No mês passado, o ministro da Agricultura, Nizar Hani, afirmou que 22,5% das terras usadas para agricultura no sul do Líbano foram danificadas, e boa parte não está mais apta à produção. O uso de munições como o fósforo branco, extremamente inflamável, alimentou incêndios florestais, como na reserva natural de Berachit, uma área de proteção ambiental.

“A remoção de árvores e arbustos — seja por incêndios causados ​​por fósforo branco, pelo uso de tratores ou pela aplicação intensa de herbicidas — deixa a frágil camada superficial do solo mediterrâneo totalmente exposta”, explicou Jaafar, alertando para o risco de desertificação e contaminação do solo e do lençol freático. “A geologia do sul do Líbano é composta principalmente por calcário cárstico altamente poroso. Poluentes superficiais podem infiltrar-se rapidamente em aquíferos subterrâneos profundos, comprometendo fontes de água potável e de irrigação por décadas.”

Dentre as vítimas do que Akesson chamou de “ecocídio” — a destruição deliberada e em larga escala de ecossistemas —, as oliveiras trazem um significado à parte no Líbano, em Gaza e na Cisjordânia , onde o avanço dos assentamentos judaicos, ilegais pela lei internacional, eliminou dezenas de milhares de árvores, algumas com centenas de anos e cultivadas por muitas gerações.

Para os palestinos, as oliveiras remetem a uma ligação de séculos com a terra, e a colheita é uma celebração à comunidade e à resiliência. Para os libaneses, a conexão com sua essência nacional foi celebrada em um verso do escritor Khalil Gibran, “o olival plantado pelo camponês nas encostas do Líbano sobreviverá a todos os seus feitos e proezas”.

“Como Khalil Gibran capturou poeticamente, a oliveira é um símbolo duradouro de resiliência ( sumud ) e pertencimento. Ela liga as famílias às suas terras ancestrais através das épocas de colheita e da história familiar compartilhada”, aponta Jaafar. “Despir as árvores das comunidades rurais mina a sua autossuficiência e tenta apagar o vínculo físico entre as pessoas e a terra que elas cultivaram durante séculos.”

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