A passagem do diagnóstico para a solução, porém, é discutível. Para sustentar que seria possível reduzir os juros sem desancorar a inflação, o autor recorre à Teoria Fiscal do Nível de Preços, de John Cochrane. Vale olhar o que ela efetivamente diz.
A ideia central é simples: o valor real da dívida depende da capacidade futura de pagamento do governo. Quando não há confiança de que haverá superávits suficientes para honrar a dívida de hoje, o ajuste ocorre pelo nível de preços. Se o governo não tem recursos para pagar suas contas, agora ou de forma crível no futuro, haverá inflação não importa o que o Banco Central faça.
O Banco Central consegue afetar a trajetória da inflação, mas não garantir sozinho a estabilidade de preços sem sustentação fiscal. Política monetária e fiscal não são mundos independentes e sua harmonia é fundamental.
Isso também explica por que governos conseguem financiar dívidas a juros menores. Déficits presentes precisam vir acompanhados da expectativa crível de superávits futuros. O investidor financia o governo hoje porque acredita que a conta será paga amanhã.
Assim, uma queda de juros incompatível com a situação fiscal pressionaria primeiro o câmbio. Conter esse movimento exigiria vender reservas. As reservas acumuladas em duas décadas sofreriam e, acabariam financiando quem se antecipou. O segundo efeito viria da própria curva de juros: o Banco Central define a taxa de um dia, não a de dez anos, que depende de expectativa de inflação e prêmio de risco. Menos juro anunciado, mais juro efetivamente pago.