'Não é comentário de internet ou político que defende pauta ridícula que vai me dar medo', diz Gabriela Loran sobre transfobia

Quando fez Viviane em " Três Graças " ( Globo ), Gabriela Loran diz que sentiu que a farmacêutica seria a personagem por meio da qual já falaria tudo o que sempre quis falar sobre a sua condição como mulher trans.

Por Admin ·

'Não é comentário de internet ou político que defende pauta ridícula que vai me dar medo', diz Gabriela Loran sobre transfobia

Isso não significa, pondera a atriz, que ela recusaria outros papéis de mulher trans. Mas era um desejo poder mostrar suas outras facetas como artista que não estivessem ligadas à sua identidade de gênero.

Em seus próximos trabalhos, Gabriela Loran interpretará mulheres cis —será Anamara em " Lá na Minha Terra ", próxima novela das seis da Globo, que estreia nesta segunda (6), e a chef de cozinha Isa na comédia romântica "Amor à la Carte", dos Estúdios Globo, que chegará ao público em abril do próximo ano. "É ocupar esse lugar, conquistar esses personagens com estofo, com nuances, com complexidades que vão para além dessas condições de vida que nos abarcam", diz.

A atriz conversou com a coluna por chamada de vídeo poucos dias após o primeiro turno das eleições, em que nomes da direita conservadora se elegeram com muitos votos e, em alguns casos, com discursos transfóbicos. Deputada estadual mais votada em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL) postou logo após a sua vitória que um "homem biológico nunca vai ocupar o espaço da mulher mais votada de São Paulo", em uma provocação à deputada federal reeleita Erika Hilton ( PSOL -SP).

Gabriela afirma que, enquanto Erika está preocupada com pautas relevantes para a sociedade, como o fim da escala 6x1 , esses políticos "retrógrados estão presos em pautas que a gente nem fala mais", como impedir pessoas de usar o banheiro x ou y. "É uma pena que eles sejam eleitos com muitos votos porque isso reflete um país que está aí."

Mas a atriz afirma não se assustar com essa realidade por vivê-la na pele todos os dias, ao receber comentários preconceituosos a cada vez que publica uma foto ou quando um vídeo seu viraliza. Ou ainda quando sai uma notícia de que estará em uma novela. "Mas não vou direcionar a minha atenção para esse tipo de pessoa. Não vou ficar chorando as mágoas das coisas que passei, das dificuldades. Quero olhar para a frente, quero construir um Brasil melhor para as outras Gabrielas que estão vindo por aí", enfatiza.

A atriz tinha sete anos quando viu a modelo transexual Roberta Close em entrevista a um programa de TV. Mesmo criança e sem entender muito bem, afirma ter sentido um "conforto no coração" ao ver que existia alguém que tinha passado por uma transição de gênero. "Eu pensei: 'Meu Deus, é possível'."

Naquele momento, contudo, entendeu que não era a hora de falar. "Tudo na minha vida, todas as decisões que tomei em relação a ser quem eu sou, a desabrochar como mulher, as intervenções cirúrgicas que fiz, foi tudo muito bem pensado porque tenho muito carinho e apreço pelo meu corpo. Estudei muito." Gabriela iniciou a sua transição aos 23 anos e fez a cirurgia de redesignação de sexo em 2024, na Tailândia.

Nascida em uma família simples de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, ela revela que sempre teve apoio dos pais, mesmo quando eles não conseguiam entender 100% das transformações pelas quais passava. "Eles estavam aprendendo comigo."

"Independentemente do mundo me destruir aqui fora, chegava em casa e tinha o feijão quentinho da minha mãe, o meu pai ia me buscar no ponto de ônibus, me ligava para saber se eu estava bem, me liga sempre", relembra ela, emocionada. Vez ou outra, revela, eles se sentem também atingidos pelos ataques que a filha recebe na internet. "Minha mãe, de vez em quando, fica respondendo. E eu falo: não adianta. A gente sabe que nada disso me define."

Gabriela diz que se mantém firme graças a muita terapia, autocuidado e consciência de tudo o que já viveu. "Quando você tem propriedade de saber quem é, não é um comentário na internet, não é um político que venceu ou defendeu uma pauta ridícula que vai me dar medo ou vai me fazer dar passos para trás", afirma. "Não, não. Só me dá mais vontade de lutar. Essa luta caminha com a gente para sempre. Desde que decidi desabrochar a mulher que eu sou, isso me acompanha", acrescenta.