Segundo Milton Maluhy, é importante que governo defina ministro da Fazenda
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São Paulo O Itaú Unibanco não vê com bons olhos uma eventual redução da taxa básica de juros (Selic) desvinculada da trajetória dos juros futuros, como discutido nos últimos dias.
A proposta passou a ser debatida após membros do governo Lula se debruçarem sobre o trabalho do economista André Lara Resende , um dos formuladores do Plano Real , que sugere novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária em meio à preocupação com o rumo das contas públicas .
"É do interesse de todos trabalhar com juros estruturalmente mais baixos. Mas, para isso, precisamos criar as condições, porque o risco que corremos é imaginar que a queda de juros de curto prazo pode ser feita na força bruta. O efeito que isso gera na sequência é a curva de juros de longo prazo, onde todas as empresas e pessoas físicas se financiam, vai aumentar de forma importante", disse Milton Maluhy, CEO do Itaú, nesta quarta-feira (4), ao comentar o balanço do banco referente ao terceiro trimestre deste ano.
Segundo o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan , um eventual tabelamento de juros não está no radar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A fala ocorreu após reportagem da Folha mostrar que integrantes do governo afirmaram que existe a tentativa de agendar uma reunião de Lula com economistas que possam trazer visões diferentes para a solução do problema fiscal.
"Acho que não tem ainda uma discussão, acho que tem especulação. E aí, quando escutamos especulações, ideias, sugestões, recomendações, procuramos ser muito serenos para avaliar propostas concretas", afirmou Maluhy, do Itaú.
O executivo fez coro ao mercado e disse que aguardam a definição da equipe econômica do Lula 4, sendo importante a definição de quem será o ministro da Fazenda e de que forma ele vai atuar.
" O mercado, por definição, não tem partido. Ele olha para propostas concretas. Então, o próprio Lula teve ciclos muito favoráveis em mandatos anteriores. Em 2002, ele se beneficiou muito de políticas claras, transparentes. Os resultados acompanharam, o Brasil virou investment grade lá atrás", disse o executivo, lembrando o momento em que o país ganhou grau de investimento, ou seja, o selo de bom pagador.
Maluhy afirmou que voltar a ter esse grau de investimento é um bom objetivo para o país, especialmente quando vizinhos da América do Sul têm esse atrativo.
"Isso afeta a capacidade de financiamento do país, seja do ponto de vista de volume e recursos, seja do ponto de vista de preço e capacidade de financiamento. E, tão importante quanto o social é o fiscal, ou tão importante quanto o fiscal é o social, os dois têm que andar de mãos dadas", afirmou o CEO do Itaú.
Ele citou a desvalorização do câmbio, que pode gerar um aumento da inflação. O petróleo em alta e a reforma tributária também podem impulsionar a alta de preços, o que levou alguns economistas a projetarem uma inflação de até 6% em 2027, segundo Maluhy.
"Quando a inflação piora, a reação do Banco Central é os juros. Então, mais de 70% das casas consultadas no mercado já imaginam uma pausa na redução de juros hoje na reunião do Copom . E esses juros devem continuar em um patamar restritivo por um prazo prolongado, praticamente estável ao longo do ano que vem inteiro, dependendo naturalmente das condições econômicas", disse o executivo.
Segundo Maluhy, juros menores criariam a oportunidade para os bancos crescerem a carteira de crédito de forma mais acelerada, porque a inadimplência tende a cair.
"Obviamente, olhando para frente, as condições econômicas são piores. Quando a gente olha o cenário de 2027, os economistas estão revisando suas projeções de PIB [Produto Interno Bruto], então possivelmente com menos crescimento e aumento de desemprego."
O executivo reafirmou a política do Itaú de priorizar a concessão de crédito a clientes com maior capacidade de pagamento e com linhas com garantias.
"No quarto trimestre, continuamos acreditando na nossa dinâmica de construção de portfólio, principalmente porque temos crescido acima de dois dígitos nos públicos, especialmente, de média e alta renda, que é uma fortaleza do banco e onde a gente tem posicionado o portfólio ao longo dos anos."
Com produtos menos arriscados e, por consequência, menos rentáveis, o banco também prioriza o corte de custos para seguir gerando uma rentabilidade acima dos pares.
"Isso passa por priorização, por renúncias, por tecnologia e transformação. Quando você olha para frente e vê um cenário mais desafiador, especialmente do ponto de vista de atividade, capacidade de geração de novos negócios, de crescimento de carteira, o exercício que só depende de nós fica do lado do custo", afirma Maluhy.
"Não temos que deixar de investir, sempre olhando para o futuro, sem em nenhum momento hipotecar o futuro, mas ao mesmo tempo fazendo boas escolhas e priorizando adequadamente", completa.
Puxado pelo aumento na concessão de crédito com garantia, o Itaú Unibanco teve um lucro líquido recorrente de R$ 12,617 bilhões no terceiro trimestre deste ano , informou o banco na terça-feira (3). O resultado é 6,2% maior que o registrado no mesmo período de 2025 e representa uma alta de 1,7% ante o segundo trimestre de 2026.
O ROE (retorno recorrente sobre o patrimônio líquido médio anualizado), indicador de rentabilidade do banco, caiu de 24,3% para 23,6% em três meses. Na comparação anual, há alta de 0,6 ponto percentual.
Fundação: 2008, ano de fusão do Banco Itaú e do Unibanco
Principais concorrentes : Bradesco, Santander, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Nubank