Pois ainda se fazia fila com frequência para ir ao cinema; eram longas, e essas da Mostra eram, em definitivo, diferentes. Era como se a gente fizesse fila não para ver um filme, mas para entrar na vida, conhecer o mundo, conhecer pessoas, estar junto delas, reencontrá-las.
A emoção crescia sempre que a gente começava a descer a escadaria do Masp, o Museu de Arte de São Paulo, a caminho do auditório: quem chegava na escada fatalmente conseguiria ter lugar na sala. O filme? Tanto faz. Podia ser uma decepção ou não. O importante era estar lá. Quem não encontrava lugar nas poltronas se ajeitava nas laterais.
Estávamos na ditadura, e ir ao cinema era também um manifesto político. A exibição de "O Império dos Sentidos" , em 1979, não foi só uma revelação cinematográfica, nem um evento apenas social. Ver um filme podia conter toda a esperança do mundo, do futuro, do que nos esperava.
Nem tudo, porém, eram flores. Por exemplo, a cidade cinéfila parou para ir à fila do "Calígula" e se arrependeu.
Mas ruim mesmo foi a ruptura de Leon Cakoff, seu criador, com o Masp. O evento deixou de ser "a Mostra do Masp", passou a outros cinemas, virou só "a Mostra".
Houve também o tempo difícil da concorrência com o Festival do Rio , que tinha uma pilha de patrocinadores fortes. Restava ao Leon buscar os filmes "de país sem água encanada", como dizia o humorista José Simão. Curiosamente, de lá podiam às vezes vir algumas das obras mais surpreendentes.