Em 2019, a cobertura atingiu toda a cidade fluminense. Um estudo-piloto da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) com o World Mosquito Program (WMP, na sigla em inglês) avaliou o efeito pós-liberação. Passados dois anos do início do projeto, os casos de dengue caíram 69%. Depois de cinco, quase 90%.
Desde então, o país avançou no uso da tecnologia , com capacidade semanal de produção de 340 milhões de ovos do mosquito com a bactéria. Porém, ainda esbarra em gargalos regulatórios. E isso num ano com um El Niño em curso que pode impulsionar o volume de casos da doença .
Segundo o Ministério da Saúde , hoje a soltura dos mosquitos com a bactéria ocorre em 16 municípios do país , numa área com 16 milhões de habitantes, com investimento de R$ 117 milhões até o momento.
De acordo com o ministério, o plano é incluir outros 54 nessa lista a partir do ano que vem, alcançando mais 7,2 milhões de pessoas —em São Paulo, constam da lista Campinas e Ribeirão Preto, por exemplo.
Os ovos de mosquitos com Wolbachia são produzidos no país em duas biofábricas —a bactéria é natural em cerca de dois terços das espécies de insetos, mas não no Aedes . Após alguns dias, as larvas eclodem e se desenvolvem em adultos, que são liberados nas ruas por agentes de saúde municipais.
O cruzamento com fêmeas de Aedes selvagens leva a descendentes que também carregam a Wolbachia. Ao longo de algumas semanas, o número de mosquitos com a bactéria atinge um patamar de cerca de 70% no local, diminuindo a transmissão do vírus da dengue entre humanos.
O pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira esteve à frente do projeto de Niterói e de um segundo estudo, em Campo Grande (MS), apoiado pelo Ministério da Saúde —este mostrou 63% de redução de casos. Ele conheceu a tecnologia quando fez pós-doutorado no laboratório de Scott O'Neill, na Universidade de Queensland (Austrália), descobridor do método.
À época, O’Neill estava interessado em testar se uma cepa de Wolbachia que reduzia pela metade o tempo de vida da mosca-da-fruta ( Drosophila melanogaster ) também diminuiria o do Aedes .
Mosquito com bactéria se consolida no combate à dengue no Brasil, mas ainda esbarra em gargalos
Entre agosto de 2015 e janeiro de 2016, os moradores de Jurujuba, bairro de Niterói (RJ), conviveram com uma população diferente de pernilongos urbanos. A região foi a primeira no Brasil a receber mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia , q