Mortes: Químico foi leitor assíduo da Folha por 79 anos

Aos 7 anos de idade, em 1947, Roberto Machado de Moraes foi para a escola e, alguns meses depois, já havia aprendido a ler e a escrever. A partir de então, iniciou uma rotina que manteve até seus últimos dias: ler as notícias da Folha , sempre do final para o

Por Admin ·

Mortes: Químico foi leitor assíduo da Folha por 79 anos

Na época, ainda era a Folha da Manhã, da qual seu pai, Rubens Ferreira de Moraes, era assinante. O tempo passou e ele próprio fez a assinatura quando se casou com Maria Lúcia Ramos de Moraes, em 1968. Em 2021, no centenário do jornal , enviou um texto contando sua experiência. Ele dizia que sua maior lembrança era a Folha ter participado da sua alfabetização, e afirmava nunca ter tido uma decepção com o jornal.

Nascido em Socorro, no interior de São Paulo , em 23 de março de 1940, ele passou um período da adolescência em Campinas , para onde se mudou após o casamento.

Formou-se em 1967 na quarta turma de química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, atualmente Unesp . Depois, fez mestrado em ciência e tecnologia de alimentos pela USP (Universidade de São Paulo) , em 1982, e doutorado em tecnologia de alimentos pela Unicamp , em 2002.

Apesar de ser da área de exatas, durante a faculdade ele organizava e escrevia os roteiros dos eventos de apresentação dos calouros (o Bishow), que nem os professores perdiam.

Grande defensor da liberdade, participou de reuniões e convenções contra a ditadura militar .

Em 1968, começou a trabalhar no Ital (Instituto de Tecnologia de Alimentos), em Campinas, ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. Foi um dos pesquisadores que montaram a seção de química do instituto, onde atuou por toda sua carreira.

"Ele era um homem de muitas histórias. Adorava acampar e fez muitas viagens deste tipo com minha mãe, família e amigos. Quando eu nasci, ele e minha mãe compraram uma pequena chácara em Ubatuba como um presente para mim. Ele amava aquele lugar e frequentou até o final da vida", diz a filha única Alice Ramos de Moraes, 44.

Alice lembra que o pai sempre brincava que ele teve dúvidas do que comprar como presente para ela. A opção era um faqueiro Christofle de prata completo, mas ele decidiu pela casa na praia, que se tornou seu refúgio e para onde iam com frequência.

Nos anos 2000, Maria Lúcia ficou acamada devido a um câncer e Roberto cuidou dela até a morte, em 2010.

"Ele fazia a dieta dela (ela se alimentava por sonda nasogástrica) e preparava fitoterápicos, sempre buscando a ajuda de amigos, em especial um nutricionista. Ela nunca teve uma escara [lesão na pele] ao longo de todos aqueles anos, graças ao tratamento que ele desenvolveu com própolis", diz Alice.

Roberto tinha muitos amigos, gostava de telefonar para eles e de organizar festas de aniversário de formatura de sua turma de faculdade. Também adorava dançar e ouvir música, jazz em especial.

Ele conviveu por mais de 30 anos com uma cardiopatia grave , contrariando os prognósticos médicos. Quase morreu algumas vezes ao longo deste período, e teve experiências de recuperação da saúde que foram classificadas por médicos como milagres.

"Depois do falecimento da minha mãe, ele encontrou uma nova companheira, a Sueli Regina Baggio, com quem foi muito feliz, e que cuidava dele com muito amor", diz Alice.

Roberto morreu no dia 3 de outubro, aos 86 anos. Ele deixa a filha e a segunda esposa, Sueli, com quem se casou em 2012.