'Minha melhor amiga' salva ano do cinema brasileiro, mas cenário preocupa analistas

23/10/2026 03h59 Atualizado 23/10/2026 07h58 Em 2019, o cinema brasileiro vivia um ano dos sonhos, com grandes sucessos de bilheteria como “Minha mãe é uma peça 3” e “Minha vida em Marte”, e com obras premiadas em festivais internacionais

Por Admin ·

'Minha melhor amiga' salva ano do cinema brasileiro, mas cenário preocupa analistas

23/10/2026 03h59 Atualizado 23/10/2026 07h58

Em 2019, o cinema brasileiro vivia um ano dos sonhos, com grandes sucessos de bilheteria como “Minha mãe é uma peça 3” e “Minha vida em Marte”, e com obras premiadas em festivais internacionais como “ Bacurau ” e “A vida invisível”. À época, o audiovisual nacional era responsável por mais de 13% do público registrado no país. Logo depois, veio a pandemia, o cenário político mudou, e a fatia de mercado do cinema brasileiro encolheu, atingindo níveis alarmantes em 2021 (1,8%) e 2023 (3,3%). A situação começou a melhorar em 2024 e 2025, com o lançamento de obras que se tornaram consagradas, como “ Ainda estou aqui ” e “ O agente secreto ”, e produções populares, como “Minha irmã e eu” e “O Auto da Compadecida 2”, que devolveram o market share do cinema nacional para a casa dos 10%. Eis que chegamos a 2026, e a gangorra do mercado cinematográfico brasileiro volta a balançar para baixo.

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Em um período de muita dificuldade, um filme, porém, vem “salvando o ano”: “Minha melhor amiga”. A comédia de Susana Garcia, com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli , já levou 5,84 milhões de pessoas às salas de cinema, superando “Ainda estou aqui”, com 5,83 milhões, como o maior público para um filme nacional no pós-pandemia. Até aqui, somente dois filmes brasileiros conseguiram em 2026 a façanha de vender mais de um milhão de ingressos (além de “Minha melhor amiga”, teve “O agente secreto”) e somente sete obras superaram a marca de cem mil espectadores.

No ano passado, 111 dos 203 longas brasileiros lançados comercialmente não alcançaram a marca de mil ingressos vendidos, segundo dados do Filme B.

— Até 30 de setembro passado, a participação de mercado acumulada do cinema brasileiro, em público, foi de 7%, inferior aos 10% do mesmo período de 2025. De janeiro a agosto, havia sido de 3%. Ou seja, graças ao excepcional desempenho de “Minha melhor amiga”, o percentual mais do que dobrou — explica Rodrigo Saturnino Braga, diretor do Filme B, site especializado no mercado audiovisual.

Braga comemora o sucesso da comédia estrelada por Ingrid e Mônica, mas destaca a importância de ter outros filmes com capacidade de atrair público, para evitar que o cinema nacional dependa do desempenho de apenas uma obra. Para os próximos meses, ele destaca os lançamentos de “100 dias”, “As dez vantagens de morrer depois de você”, “Farofeiros 3” e “Feito pipa”.

Se com relação ao audiovisual brasileiro a oscilação é para baixo, no cenário geral os números do mercado cinematográfico apresentam crescimento no que diz respeito a público e renda. Segundo dados da Ancine, foram vendidos 115,79 milhões de ingressos, com uma renda de R$ 2,46 bilhões, até o momento, em 2026. Os valores já são superiores a todo o ano de 2025, que registrou 115,48 milhões de ingressos comercializados, com uma renda de R$ 2,3 bilhões. O segmento foi impulsionado pelo sucesso de obras como “Homem-Aranha: um novo dia”, com impressionantes 18,8 milhões de espectadores.

Para a cineasta Susana Garcia, “um dos maiores desafios é fazer com que o filme seja relevante o suficiente para despertar no público a vontade de sair de casa e ir ao cinema”:

— A gente disputa a atenção das pessoas com inúmeras opções de entretenimento, e essa escolha envolve tempo, deslocamento e dinheiro. Precisamos criar esse desejo e oferecer uma experiência que faça essa saída valer a pena.

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Diretora de alguns dos maiores sucessos do audiovisual nacional, como “Minha mãe é uma peça 3”, que vendeu 11,8 milhões de ingressos, Susana Garcia faz questão de dizer que não existe fórmula para o sucesso. O crítico e professor Pedro Butcher concorda. Autor do livro “Hollywood e o mercado de cinema no Brasil” (Editora Letramento, 2024), ele recorre a uma reflexão feita pelo roteirista vencedor do Oscar William Goldman, que escreveu: “Ninguém sabe nada. Não há uma pessoa em toda a indústria do cinema que saiba o que vai funcionar. O tempo todo é uma adivinhação, se você for sortudo, uma adivinhação instruída”.

— Uma das características principais, mais perturbadoras e que geram mais ansiedade no audiovisual é a absoluta imprevisibilidade do sucesso de um filme. E uma forma de combater isso é você ter um volume de produção grande e diversificado e um volume de investimento grande em marketing — diz Butcher. — Temos um mercado ocupado (pelo cinema americano) e não temos mecanismos que permitam ao filme brasileiro ter chance de permanecer mais tempo em cartaz.

Um dos tradicionais mecanismos de defesa do cinema brasileiro, a lei da cota de tela vem sendo alvo de críticas por parte de especialistas do mercado audiovisual, por permitir formas de ser burlada. Desde o ano passado, por exemplo, redes exibidoras como Cinemark e Kinoplex passaram a exibir filmes brasileiros em horários pouco atrativos (entre 10h e 12h da manhã), como forma de alcançar a porcentagem mínima de sessões de obras nacionais.

— O problema da cota de tela não é o mecanismo, mas como ele é pensado para o Brasil. A cota de tela segue sendo eficiente quando se tem uma estrutura sem brechas, coisa que o Brasil ainda não conseguiu formular. Por exemplo: nossa cota de tela depende de um decreto presidencial. Ou seja, já ficamos à mercê da boa vontade política com o setor de quem está no poder e vimos recentemente que nem sempre isso será favorável — defende a produtora executiva Marina Rodrigues, especialista em políticas públicas do audiovisual.

Ela acredita ainda que as políticas públicas para o audiovisual devem pensar também na comercialização e no marketing das obras.

— Acredito que o investimento massivo na distribuição é a política pública necessária para evitar a invisibilidade dos filmes brasileiros. Ainda temos um modelo de fomento que olha muito para a produção, mas pouco para a distribuição e comercialização dessas obras. E a maioria dos filmes brasileiros não têm orçamento para cobrir estes custos — diz.

“Comunicação e marketing” são as palavras de ordem para Adriana Rattes, diretora executiva e sócia-fundadora do Grupo Estação, rede com três espaços no Rio (dois em Botafogo e um na Gávea) e que também atua como distribuidora.

— Os recursos para distribuição são insuficientes e mal distribuídos. As políticas têm sido bastante erráticas. Não se trata apenas de ter subsídios, mas de primeiro entender o que se deve fazer, de fortalecer os distribuidores brasileiros independentes, de entender que um projeto de filme não deve ser desenvolvido sem que seja pensado o que se vai fazer com ele depois e quanto isto vai custar — aponta a exibidora.

Adriana Rattes critica a tendência do mercado de sempre só “olhar para o momento”, destacando a necessidade de se aumentar o circuito exibidor no país. Hoje, apenas 8,4% (472 de 5.571) das cidades brasileiras têm salas de cinema.

— Desde o inicio dos anos 2000 nossa participação no market share oscila entre mais ou menos 10 e 20%, e outra característica é que praticamente dois ou três filmes por ano definem esta participação. Para mim, este cenário é resultado da falta de um plano bem articulado entre os três segmentos da cadeia do audiovisual, produção, distribuição e exibição — afirma. — É preciso aumentar o circuito exibidor, ter mais salas na periferia, nas cidades médias e pequenas. É preciso regular o streaming e garantir uma janela de cinema de no mínimo 60 dias e criar incentivos estratégicos e econômicos para que o exibidor não seja tão dependente do filme americano.

Filmes brasileiros mais vistos em 2026

“Minha melhor amiga”, com 5,84 milhões de espectadores “O agente secreto”, com 1,3 milhão* “Velhos bandidos”, com 429 mil “Se eu fosse você 3”, com 245 mil “O diário de Pilar na Amazônia”, com 149 mil “Galinha Pintadinha — O filme”, com 124 mil “Agentes muito especiais”, com 105 mil “(Des)controle”, com 98 mil “O poder do Rosário”, com 95 mil “Sexo e destino”, com 83 mil

• Público em 2026 de filme lançado em 2025 Fonte: Filme B, até 19 de outubro

Filmes mais vistos no Brasil em 2026

“Homem-Aranha: um novo dia”, com 18,8 milhões de espectadores “Toy Story 5”, com 8,3 milhões “Michael”, com 7,4 milhões “O diabo veste Prada 2”, com 6,9 milhões “Minha melhor amiga”, com 5,8 milhões “A Odisseia”, com 5,3 milhões “A empregada”, com 4,5 milhões “Super Mario Galaxy: o filme”, com 4,3 milhões “Avatar: fogo e cinzas”, com 3,5 milhões “Zootopia 2”, com 3,4 milhões

• Público em 2026 de filmes lançados em 2025 Fonte: Filme B, até 19 de outubro

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