Milei aposta em data centers na Patagônia para atrair a indústria de IA

Presidente argentino busca aproveitar terras e recursos energéticos da região para transformá-la em um polo tecnológico

Por Admin ·

Milei aposta em data centers na Patagônia para atrair a indústria de IA

Projeto de lei defendido pelo governo prevê incentivos fiscais e dispensa de regulamentação para o setor

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Los Toldos (Argentina) | Financial Times Em um trecho remoto da estepe patagônica, aos pés de um vulcão, o rugido do vento era abafado pelo zumbido de servidores de computador.

Um data center de 12 MW (megawatt), coberto de poeira cor de terracota e cercado por planaltos rochosos que remetem a Jurassic Park, funciona com gás que, de outra forma, seria queimado como subproduto da extração de petróleo de xisto nas proximidades.

"Há uma enorme oportunidade aqui para que os data centers não concorram com as necessidades humanas", disse Tomás Ocampo, fundador da Unblock Energy, que planeja uma instalação de várias centenas de MW para alimentar sistemas de inteligência artificial na zona rural da Argentina .

Ocampo afirmou ter recebido uma enxurrada de ligações de potenciais investidores e clientes dos Estados Unidos após as eleições de meio de mandato , quando vitórias expressivas dos democratas e a aprovação de medidas em plebiscitos contra data centers derrubaram as ações de tecnologia e alimentaram temores de paralisação do setor . O bilionário Elon Musk voltou a sugerir a construção dessas instalações no espaço.

"Antes de colocarmos data centers no oceano e no espaço, a Argentina faz muito sentido", disse Ocampo.

O presidente da Argentina, Javier Milei , apresentou os data centers como a base de seu plano para transformar o país em um "polo de IA" . Encaminhou um projeto de lei com incentivos fiscais, prometeu não regulamentar a IA e permitir "corporações não humanas", além de estreitar relações com bilionários da tecnologia como Musk e Peter Thiel. Milei tem ressaltado a "energia abundante" e as "vastas terras inóspitas" do país, o oitavo maior do mundo em extensão, com apenas 46 milhões de habitantes.

Mas a Argentina, muito atrás de seus pares em capacidade de data centers e a milhares de quilômetros de muitas das grandes cidades onde vivem os usuários finais da IA, enfrenta enormes obstáculos. A abordagem do governo provocou reação de opositores, que o acusam de querer transformar o país em um "laboratório" para empresas de tecnologia.

Décadas de instabilidade econômica e falta de investimentos na rede elétrica deixaram o país com menos de 40 MW de capacidade em data centers, muito atrás dos 400 MW do Chile. Gigantes americanas da tecnologia optaram pelo Uruguai, pelo México e pelo Brasil para instalar seus primeiros data centers na América Latina .

O projeto de maior destaque pode ter estagnado. Em outubro do ano passado, Milei anunciou planos para um data center de 500 MW destinado a atender a OpenAI, mas não houve novos desdobramentos. A Sur Energy, que lidera o projeto, disse à imprensa local em agosto que "a bola" estava "com a OpenAI". Mas um porta-voz da OpenAI afirmou ao FT que a empresa era apenas "uma potencial compradora" e que "qualquer eventual aquisição dependeria" de a Sur Energy desenvolver o data center.

A oposição realizou uma audiência no Congresso sobre as ligações de Thiel com a Argentina, depois que ele comprou uma mansão em Buenos Aires, participou de reuniões a portas fechadas com a equipe de Milei e adquiriu uma participação em uma petrolífera local. Protestos em massa forçaram Milei, em agosto, a abandonar uma iniciativa para flexibilizar as restrições à propriedade de terras por estrangeiros.

Grupos da sociedade civil afirmam que os data centers agravariam o estresse hídrico na Patagônia e gerariam poucos empregos, e que o regime de incentivos limitaria a capacidade do Estado de intervir diante da escassez de recursos. "Os benefícios são realmente excessivos", disse o ativista ambiental Oscar Soria.

O sonho de Milei, porém, ainda pode se tornar realidade, à medida que empresas de energia começam a oferecer sua produção de gás de xisto aos desenvolvedores. A Pampa Energy afirmou em outubro que dispõe de 800 MW de capacidade na província de Neuquén. A polonesa Green Capital anunciou um data center de US$ 3 bilhões na província de Chubut.

A aprovação do regime de incentivos —que já passou pela Câmara dos Deputados e aguarda o aval do Senado— deverá destravar investimentos, disse Raimundo Diaz, vice-presidente executivo da Vistra Global Solutions, grupo de serviços empresariais sediado nos EUA. "A Argentina é um dos únicos países com poucas restrições para implementar data centers de grande capacidade em um curto período", afirmou. "Está chegando tarde à festa, mas tem enorme potencial para recuperar o atraso."

Defensores dizem que a instalação de data centers na Patagônia, região que ocupa um terço da Argentina, resolveria o descompasso entre a riqueza energética do país e sua demanda. A produção de petróleo mais que dobrou desde 2024 em Vaca Muerta, formação de xisto do tamanho da Bélgica, mas a de gás quase não aumentou por falta de infraestrutura de transporte. A Unblock afirma que as empresas de perfuração desperdiçam, por meio da queima, o equivalente a cerca de 600 MW de geração potencial e que até 3 GW em gás permanecem no subsolo por falta de demanda.

"Levamos o data center para onde há energia sobrando", gritou Miranda Marrazzo, engenheira-chefe da Unblock, tentando se fazer ouvir em meio ao barulho dos servidores. Germán Serrano, ex-executivo da estatal YPF, argumentou que seria "mais eficiente" "construir os data centers em Vaca Muerta e transportar fótons pelo mundo do que transportar energia até os data centers".

Fontes remotas de energia renovável também são abundantes, mas a capacidade limitada da rede faz com que quase 6 GW em projetos aguardem aprovação ou enfrentem restrições à geração. A localização distante limitará o papel da Argentina no processamento que precisa ocorrer perto dos usuários finais, mas os desenvolvedores afirmaram que a Patagônia é atraente para o treinamento de modelos, que pode ser feito remotamente.

Ainda assim, a envelhecida rede elétrica é um grande obstáculo. Em setembro, o governo afirmou que novos projetos de grande porte, em qualquer setor, deverão providenciar infraestrutura para 80% de sua eletricidade, a fim de evitar a sobrecarga da capacidade existente.

Enquanto isso, Soria alertou que os desenvolvedores que veem a Patagônia como "vazia" estão fazendo um cálculo equivocado. "É provavelmente a região argentina com o maior histórico de comunidades locais bloqueando projetos", acrescentou, observando que projetos de gás em Vaca Muerta enfrentaram resistência de moradores indígenas mapuches.

Daniel Yankelevich, do centro de estudos Fundar, argumentou que a Argentina deveria buscar investimentos nos quais empresas argentinas agreguem valor, em vez de apenas fornecer terra e energia, como ocorre em seus setores de software e serviços de tecnologia. "Os data centers devem ser um meio, não o objetivo final", afirmou.