24/10/2026 04h30 Atualizado 24/10/2026 04h30
Já faz quatro anos que eu e minha mulher decidimos dividir a casa com o “roommate” Franc, um golden. Um tempo depois, o filho do Franc se juntou a nós. A nossa rotina mudou radicalmente. Sempre fui organizado, mas aprendi a suportar um pouco de desordem. Em troca, ganhei um companheirismo que não vivia desde a adolescência, doses diárias de afeto sem segundas intenções e um compromisso inegociável: os nossos dois passeios por dia. Minha mulher é a companhia mais importante da minha vida, mas nem sempre ela curte uma saidinha pelo bairro. Os cães sempre curtem. São eles que me tiram de casa para passear e me “apresentam” a outras pessoas: tutores e desconhecidos que desaceleram para perguntar sobre eles.
Tenho uma casa cheia: mulher, dois cães e alguma dose de bagunça. Mas penso em quem volta para uma casa vazia. Segundo o IBGE, os domicílios ocupados por uma única pessoa passaram de 12,2% em 2012 para 18,6% em 2024. Morar sozinho não é sinônimo de solidão. Muita gente deseja o silêncio e a liberdade de organizar a própria vida, assim como há quem se sinta solitário mesmo vivendo cercado de gente. Mas viver só é um terreno em que a solidão encontra mais espaço para crescer e é aí que muitos apostam em um pet.
A ciência explica essa aposta, mas com uma ressalva. Em 2025, um estudo publicado na revista Scientific Reports encontrou menos solidão entre os voluntários que moravam sozinhos e tinham um animal do que naqueles que nunca tiveram um. Porém, o mesmo estudo percebeu algo que costuma ser pouco discutido: quem usava o animal como substituto das relações humanas se sentia mais só e não menos.
Outra pesquisa, da Universidade de Michigan, feita em 2018 com mais de dois mil adultos entre 50 e 80 anos, ajuda a entender o que está em jogo. Entre os tutores que moravam sozinhos, 82% relataram que o pet lhes dava propósito, e 76% que os ajudava a manter uma rotina, bem mais do que entre os que viviam acompanhados.
A diferença parece estar no papel que o pet ocupa. Um cachorro que obriga o tutor a sair duas vezes por dia, por exemplo, funciona como uma ponte. Já um gato, com sua vida feita de rotinas, ajuda a organizar os dias de quem mora com ele. Porém, vale um alerta. Um animal pode virar muro quando se torna desculpa para não procurar mais ninguém. Algo como “não preciso de gente porque tenho ele”.
Há, ainda, um paradoxo. Uma pesquisa divulgada neste ano pela rede WIN, feita em 45 países, entre eles o Brasil, mostrou que 43% dos que vivem sós têm um pet, contra 56% da média geral. Quem mais se beneficiaria dessa companhia é quem menos a tem. Condomínios que reclamam de barulho, valor da ração e o medo de partir antes do animal podem restringir a adoção.
Nada disso me autoriza a dizer que um pet cure a solidão ou previna a depressão nem que todo mundo deveria ter um, porque adotar exige compromisso duradouro e condições que nem todos tem. O que essas pesquisas sugerem é questionar o papel que o animal tem na vida de cada um. Será que ele leva o tutor para o mundo ou vira desculpa para se proteger desse mundo? Se ele ajuda a organizar a vida e vira motivo para sair de casa e puxar conversa, ele está cumprindo um papel precioso. Agora, se ele se torna o único interlocutor, talvez seja o momento de avaliar o que está acontecendo.
Com meus cães, aprendi que afeto não é algo que apenas recebemos. É algo que se constrói ao longo do tempo que dedicamos a outro ser. No meu caso, boa parte desse tempo se passa nas ruas do bairro onde moro, cumprimentando gente que não conheceria se eles não parassem para cheirar e muitas vezes receberem um agrado — de cada pessoa que encontram. Voltamos para casa cansados e muito felizes. Como tutor, posso falar: “missão cãoprida”. Isso mesmo que você leu: cãoprida.
Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.