‘Meu objetivo para os próximos anos é continuar vivo. Isso vai ser o suficiente

Para o músico e escritor Tony Bellotto, guitarrista dos Titãs, a descoberta de um diagnóstico de câncer de pâncreas, no início de 2025 durante um check up, “mudou tudo” na forma como enxerga a vida. Desde então, o artista passou por uma cir

Por Admin ·

‘Meu objetivo para os próximos anos é continuar vivo. Isso vai ser o suficiente

Para o músico e escritor Tony Bellotto, guitarrista dos Titãs, a descoberta de um diagnóstico de câncer de pâncreas, no início de 2025 durante um check up, “mudou tudo” na forma como enxerga a vida. Desde então, o artista passou por uma cirurgia e sessões de quimioterapia para tratar a doença e, hoje, aos 66 anos, está bem e voltou a tocar. Mas, diante de um quadro tão agressivo, ele conta que a notícia o fez encarar o dia a dia com mais “bom humor e desprendimento”. Questionado sobre o que gostaria de fazer nos próximos anos, ele é direto: “continuar vivo, isso vai ser o suficiente”.

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— Um diagnóstico de câncer e, no meu caso, de um tão grave quanto o de pâncreas muda totalmente a sua visão de vida. É instantâneo, quase como entrar numa outra dimensão. Você enxerga a finitude de forma palpável, sólida, à sua frente e precisa lidar com tudo o que vai acontecendo — diz em entrevista ao GLOBO.

O impacto não é à toa. Segundo o Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, apenas cerca de 13% dos pacientes estão vivos cinco anos após a descoberta de um câncer de pâncreas, em parte por ser uma neoplasia que não costuma gerar muitos sintomas, ou provoca sinais muito vagos, levando à descoberta do quadro em estágios mais avançados, de difícil tratamento.

Nesta semana, Tony Bellotto vai participar do XXVII Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, promovido pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) a partir desta quinta-feira, até sábado, no Rio de Janeiro, onde vai conversar com milhares de médicos sobre sua experiência com a doença.

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O que mudou na forma como você enxerga a vida depois de receber um diagnóstico de câncer de pâncreas?

Tudo. Um diagnóstico de câncer e, no meu caso, de um tão grave quanto o de pâncreas muda totalmente a sua visão de vida. É instantâneo, quase como entrar numa outra dimensão. Você enxerga a finitude de forma palpável, sólida, à sua frente e precisa lidar com tudo o que vai acontecendo. No meu caso, se aproximou muito mais de uma visão, digamos, zen da vida. Como ensinam os os velhos monges chineses e tibetanos, você tem que encarar a cada dia, a cada momento, a realidade que tem e lidar com ela. É uma mudança bastante radical.

Você já disse que não está “lutando contra o câncer”, mas “negociando uma convivência pacífica” e que tenta “tirar o drama” da doença. Ainda há muito estigma em relação ao paciente oncológico? Como tem lidado com isso?

O câncer é uma doença muito estigmatizada, não há como negar isso. Como escritor, por exemplo, tenho observado muito em livros e em filmes que, quando um autor quer dizer que o personagem vai enfrentar uma situação muito difícil, coloca logo que ele teve um câncer. Às vezes não precisa nem dizer qual é, mas quando a pessoa está com o diagnóstico, você imediatamente imagina uma situação difícil, em que a morte se faz presente. Mas tento levar a questão pelo contrário.

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Na maior parte do tempo não fico pensando: “Eu tenho câncer, eu tenho câncer". A ideia não é essa. No convívio com médicos durante o tratamento, vejo que a medicina evoluiu muito e tem evoluído muito diariamente. Temos avanços para diversos tipos de câncer. Então vou levando a minha vida normalmente. Mas ainda é sim uma doença estigmatizada, e o conselho que dou para quem é diagnosticado é tentar pensar como um acontecimento desses da vida. Que são difíceis, mas que precisamos levar a vida mesmo assim.

Meu tratamento está ótimo. Não estou mais fazendo quimioterapia no momento, mas continuo em tratamento, controlando a doença e levando uma vida normal. Tenho conseguido retomar a rotina normalmente, tocando, escrevendo, malhando, fazendo todas as coisas que eu fazia. E testemunhando esse avanço da medicina no tratamento dos vários tipos de câncer, principalmente no de pâncreas, que conseguimos muitas melhorias ultimamente.

Você comentou sobre algumas sequelas da cirurgia e da quimioterapia, como tem lidado com essas mudanças?

Na verdade, houve uma sequela mais próxima da cirurgia, mas que agora já passou praticamente. Era uma neuropatia que, no início, me dificultava um pouco a tocar. Principalmente com a mão direita, sentia um formigamento. Mas fui praticando e me adaptando, e passou. Sigo tocando normalmente, como sempre, e esses pequenos desconfortos são sempre superados em função de você estar tratando uma coisa que é maior. Mas não tenho mais sequela nenhuma, estou bem.

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Você já falou sobre encarar essa fase com bom humor. Quais são os momentos em que é mais difícil manter essa postura?

Não só com bom humor, mas também com bom humor. É preciso ter uma consciência da realidade, porque você não pode se enganar e esconder de si mesmo que tem uma doença grave, muitas vezes incurável. E isso gera alguns momentos em que é preciso pensar sobre coisas em que normalmente não pensamos, como a morte, tratamentos dolorosos, difíceis, a própria degradação do corpo. Mas também acho que é preciso enxergar isso tudo com um olhar além. Muitas pessoas que têm câncer dizem que ele é um professor. De fato, uma doença dessas te estimula a pensar a vida nos seus termos mais essenciais e básicos. Nesse sentido, é preciso sim um bom humor, um certo desprendimento, para passar por tudo.

Porque a vida é assim. Mesmo para quem não está doente, ela é cheia de surpresas, às vezes desagradáveis, e vamos lidando com isso. O importante nessas horas é colocar a vida em primeiro lugar e pensar em como ela quer que a gente aja. Foi assim que nós, seres humanos, chegamos até onde chegamos. Porque, se focássemos em todos os problemas, os dissabores, as coisas desagradáveis, perigosas, incontroláveis que acontecem, talvez tivéssemos nos extinguido de alguma maneira antes.

Mas o ser humano tem essa capacidade. Muitas vezes ela só vem quando você recebe um diagnóstico difícil, vive uma situação limite. Percebo em mim mesmo e em muitas pessoas com câncer que existe uma força que vem de repente, um jeito de enxergar a vida diferente e falar: "Eu tenho esse dia, então é esse dia que vou viver da melhor maneira possível".

É nesse sentido que falo em bom humor. É claro que isso nem sempre significa estar dando risada. Tem horas em que é mais difícil mesmo, você lembra que tem uma doença grave. Mas é algo que aconteceu. Então, como eu vou lidar para encarar esse dia da melhor maneira possível? Para ficar tão bem como se eu não tivesse essa doença? O caminho é por aí.

Por que a decisão de conversar com oncologistas no congresso da SBOC?

Foi um convite da Clarissa Baldotto, presidente da SBOC, para compartilhar a minha experiência justamente porque o tema do congresso é como a medicina e a criatividade artística podem estar de alguma forma relacionadas no tratamento do câncer. Achei a proposta interessante e fiquei muito honrado. Convidei a minha oncologista, Fernanda Capareli, para conversar junto comigo. A ideia é colocar um pouco da minha visão como paciente e sobre essa ligação entre a oncologia, a medicina e a criação artística. Essa relação existe, e não é apenas terapêutica. Produzir algum tipo de arte é interessante no tratamento, mas também tem um papel próprio na construção das ideias por parte dos médicos cientistas, por exemplo. A princípio, a ciência e a arte se diferenciam muito, mas têm muitos pontos em comum.

A partir do que viveu, houve alguma situação em que sentiu falta de informação, acolhimento ou apoio?

No meu caso, só recebi coisas positivas por parte da minha oncologista, do meu cirurgião, Marcel Cerqueira Cesar, e de toda a equipe envolvida no meu tratamento. Penso que, quando você lida com um diagnóstico grave, é muito importante se apoiar na ciência. É ela que vai garantir o bom tratamento. Claro que a pessoa pode ter suas crenças, mas nada vai dar certo sem a ciência. Por confiar muito nela, eu sinto que ela confia em mim também. Estamos tendo um ótimo relacionamento. Eu e a medicina, eu e os médicos. Não posso reclamar de nada, fui muito bem acolhido.

O que gostaria de fazer ou viver nos próximos anos?

Nos próximos anos, primeiro eu gostaria de continuar vivo. Isso vai ser o suficiente. Vou saber aproveitar a vida como eu estou sabendo agora. Fazendo minhas coisas, fazendo música, escrevendo, me divertindo. E é isso. Ficar vivo, esse é o meu objetivo.