Meu namorado é o meu único amigo: como retomar outros vínculos quando a relação amorosa se torna o centro da vida?

02/11/2026 03h30 Atualizado 02/11/2026 03h30 Amizade é matéria de salvação”, escreveu Clarice Lispector (1920-1977) no conto “Esvaziamento”, de 1974. Ter um vínculo forte com amigas é capaz de quebrar barreiras sociais, preconceitos e cria

Por Admin ·

Meu namorado é o meu único amigo: como retomar outros vínculos quando a relação amorosa se torna o centro da vida?

02/11/2026 03h30 Atualizado 02/11/2026 03h30

Amizade é matéria de salvação”, escreveu Clarice Lispector (1920-1977) no conto “Esvaziamento”, de 1974. Ter um vínculo forte com amigas é capaz de quebrar barreiras sociais, preconceitos e criar uma poderosa rede de apoio, nos salvando em muitas situações. No entanto, ele parece não ser suficiente, em alguns casos, quando compete com um relacionamento amoroso. É o caso da funcionária pública Lívia Tunes, de 39 anos. Ela começou a namorar o atual marido precocemente, aos 14, quando ele tinha 19. Na época, empolgada e no auge da paixão, afastou-se de todos os amigos, concentrando as energias e dedicação apenas no parceiro. Foi se dar conta apenas ao entrar faculdade. “E nunca mais consegui retomar os contatos. Estávamos juntos em tudo. Ele, por sua vez, nunca se afastou de ninguém, e mantém por perto as mesmas pessoas, até hoje. Talvez tenha a ver, também, com a minha personalidade, porque sou introspectiva”, comenta.

Embora o relacionamento seja saudável, diz Lívia, ela lamenta a solidão e as falhas tentativas de construir novas amizades já na vida adulta. “Vejo as pessoas postando com as amigas nas redes sociais e fico com uma certa inveja. Gostaria de ter alguém para desabafar, criar laços profundos, compartilhar minhas coisas. Mas, ao mesmo tempo, nesta idade, parece que todos já têm amizades solidificadas e não há brechas para entrar.” Mesmo assim, ela não pretende desistir. Apesar do futuro incerto, espera que o mesmo não aconteça com sua filha. “Ela tem 12 anos e não quero que comece a namorar tão cedo. Sou feliz, mas perdi algumas fases importantes por causa disso.”

Mas, por que muitas mulheres têm, como único amigo, o namorado ou o marido? Para a psicanalista e autora do livro “Para revolucionar o amor”, Ingrid Gerolimich, o discurso que organizava a vida da mulher voltada ao casamento, à família e à ideia do amor romântico perpetuou-se por muito tempo. “Isso está mudando com o avanço do feminismo, mas ainda tem força. Muitas de nós, com grandes carreiras, bem-sucedidas, continuamos a ser cobradas para ter um núcleo familiar. O contrário é sinal de fracasso”, explica. O trabalho de cuidado, outra responsabilidade atribuída majoritariamente às mulheres, também faz com que elas precisem se desdobrar em várias funções, dedicando menos tempo ao lazer e às amizades.

“É a atenção aos filhos, aos pais, ao marido, a quem está doente. Gerenciar uma casa ocupa todo o tempo. Como vão se dedicar às amigas ou construir novas relações?”, questiona Ingrid. Não à toa, o Estudo Global das Conexões Sociais, de 2024, no qual se enquadram o relatório da Organização Mundial da Saúde e pesquisas da Meta, afirmam que 14% das brasileiras se sentem muito ou razoavelmente sozinhas.

Uma das experiências amorosas da relações-públicas Fabiane Barbosa, de 27 anos, foi atravessada pelo abandono das amigas e a descoberta de uma dependência emocional do então namorado. Aos 18, quando o conheceu, fechou-se em uma “concha” com o rapaz por dois anos. “Minha vida se resumia à companhia dele. Até ao cabeleireiro ele ia comigo. Quando terminamos e eu descobri uma traição, precisei voltar a ter uma vida social ativa. Foi muito difícil”, lamenta. As antigas amigas, relembra, estavam chateadas com a distância e a indisponibilidade de Fabiane até então. “Quem sobrou foi a minha mãe.” Felizmente, conseguiu dar a volta por cima: fez terapia, recuperou o contato com o antigo grupo de amigas e hoje se compromete a sair com elas pelo menos uma vez por mês. “Demorou muito para eu me livrar do que sentia, tive crises de ansiedade, mas consegui. É importante não abandonar quem se importa conosco de verdade.”

Para a psicóloga Daniela de Oliveira, esse tipo de isolamento, em que o companheiro se torna o centro da vida de uma mulher, pode representar um perigo. “Nós nos formamos nas relações. Se temos apenas uma, o mundo fica empobrecido, e há consequências: se for abusiva, como conversar com alguém, desabafar, entender se está passando dos limites? Como você sai disso e se coloca?” Por outro lado, é preciso cultivar e deixar esse amor de amigas florescer também na vida real. “Não adianta apenas trocar mensagens e nunca encontrar pessoalmente. Manter esses laços é essencial. E temos o direito de existir para além de um compromisso amoroso”, finaliza Daniela.

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