Melhor do mundo, Asador Etxebarri é uma das mesas mais difíceis de conseguir da alta gastronomia

Em Axpe, um pequeno vilarejo de cerca de 1.400 habitantes no País Basco, norte da Espanha, Bittor Arginzoniz fez mais do que abrir há 36 anos um assador que se estabeleceu como uma referência na gastronomia mundial.

Por Admin ·

Melhor do mundo, Asador Etxebarri é uma das mesas mais difíceis de conseguir da alta gastronomia

Eleito na quarta-feira (4), em Lima, o melhor restaurante do mundo na influente lista The 50 Best , depois de se manter no ranking por mais de dez anos, o Asador Etxebarri se firmou como um destino de peregrinação para chefs, jornalistas e comensais de todo o planeta.

Muitos esperam meses para conseguir almoçar (o restaurante não abre para jantar e oferece apenas cinco serviços por semana) no salão rústico e acolhedor para 35 pessoas. O endereço se tornou uma das mesas mais difíceis de reservar na alta gastronomia.

O que explica o sucesso? Arginzoniz reinventou a cozinha de fogo, uma técnica ancestral que ele modernizou com utensílios feitos sob medida (como grelhas e frigideiras com furos para permitir que a fumaça impregne os alimentos) e um controle obsessivo do calor que lhe permite extrair o melhor de cada ingrediente no instante exato em que vai à grelha.

De cortes gordos e bem vermelhos de rubia gallega, uma das raças bovinas mais valorizadas para a chuleta que se tornou um emblema culinário da sua região, até o mais delicado caviar, tudo passa pelo fogo, em contato com o calor das brasas ou com a fumaça, em sua cozinha.

De manhã cedo, Arginzoniz segue para o restaurante para acender o braseiro com madeira de azinheira e troncos de videira que ele mesmo recolhe todos os dias, principalmente nos arredores do vale de Atxondo, onde viveu toda a sua vida.

Uma rotina que ele mantém "desde 27 de abril de 1990", como costuma recordar ao falar sobre a data oficial de abertura do restaurante.

Então começa a preparar todas as etapas de um menu-degustação (€ 300, cerca de R$ 1.845, sem bebidas) com mais de dez pratos: lingueirões, camarões inteiros, kokotxas (a parte inferior da mandíbula da merluza), pequenas ervilhas verdes e doces de uma vila próxima chamada Getaria temperadas com pouco mais do que manteiga de cabra que ele produz e depois defuma na churrasqueira.

Tudo tem um grau de precisão impressionante: o sabor ligeiro da brasa, a textura que brinca entre o cozido e o cru, o trabalho incansável para ressaltar o sabor mais natural do produto.

Arginzoniz se consolidou como um dos chefs mais admirados pelos seus pares — do brasileiro Alex Atala ao dinamarquês René Redzepi , cujo restaurante, Noma, já esteve cinco vezes na mesma posição da lista que o Asador Etxebarri conquista agora.

Ao ser anunciado o primeiro lugar, a plateia que lotou o Teatro Municipal de Lima veio abaixo em ovação: desde 2019 o restaurante esteve quase sempre entre os cinco melhores colocados, sem nunca ter ganhado.

Na quarta-feira, entretanto, o Etxebarri alcançou o topo da gastronomia mundial. Em seu discurso tímido no palco, ele agradeceu a seus antepassados que, "como bons cozinheiros e cozinheiras, me permitiram continuar trabalhando com uma técnica ancestral, que é o fogo".

Venceu o restaurante mais anti-establishment de todo um ranking que reúne, da África do Sul aos Emirados Árabes, restaurantes dos mais diversos conceitos, menus e preços —ainda que se incline mais à alta gastronomia, é claro.

O Etxebarri é o mais peculiar na lista justamente por querer se aproximar da cozinha mais primitiva: não aposta em receitas modernas com espumas ou esferificações que marcaram outros restaurantes espanhóis que chegaram ao primeiro lugar, como o elBulli e o Disfrutar.

Tampouco tem um trabalho massivo de relações públicas (como muitos outros que figuram nos 50 Best) e o serviço de mesas é feito sobretudo por pessoas que cresceram na região, como a própria esposa e o filho do chef, sem nenhuma formação em hospitalidade em uma escola na Suíça.

O Etxebarri é um assador basco tradicional que alcançou um nível de excelência graças ao trabalho de um chef que, como ele mesmo admite, "quer controlar absolutamente tudo do seu ofício".

"Como o prêmio muda o seu trabalho agora?". Arginzoniz responde: "Acho que aumenta muito a exigência sobre o que servimos", diz. "Por parte do cliente?" Ele reflete: "Diria que mais a minha".