Melatonina: como o suplemento que ajuda a dormir, pode ajudar no combate ao câncer

02/11/2026 04h30 Atualizado 02/11/2026 12h05 Em muitas casas, é provável que você encontre um frasco de melatonina no armário de remédios. Algumas pessoas a tomam para combater o jet lag, enquanto outras a usam para ajudar a dormir. O que

Por Admin ·

Melatonina: como o suplemento que ajuda a dormir, pode ajudar no combate ao câncer

02/11/2026 04h30 Atualizado 02/11/2026 12h05

Em muitas casas, é provável que você encontre um frasco de melatonina no armário de remédios. Algumas pessoas a tomam para combater o jet lag, enquanto outras a usam para ajudar a dormir. O que poucas pessoas imaginam é que essa mesma molécula está sendo estudada em laboratórios ao redor do mundo como uma possível aliada da quimioterapia contra um dos cânceres mais temidos: o glioblastoma.

O que o homônio indutor do sono tem a ver com um tumor cerebral? Mais do que você imagina. Mas vale a pena contar toda a história, incluindo seu lado menos glamoroso: ainda não se sabe se ele funciona em pacientes.

O glioblastoma é o tumor cerebral maligno primário mais comum em adultos e um dos mais difíceis de tratar. Seu principal desafio é que ele não cresce como uma bolinha de gude que pode ser removida facilmente: é mais como as raízes de uma erva daninha. À medida que cresce, infiltra-se entre os neurônios e estende ramificações microscópicas para o tecido saudável. Portanto, mesmo que o neurocirurgião remova tudo o que é visível, algumas células quase sempre permanecem ocultas.

Para localizá-las, radioterapia e um medicamento administrado em cápsulas, a temozolomida, são utilizados após a cirurgia. Desde que um grande estudo clínico em 2005 demonstrou que a temozolomida é a base do tratamento, o problema é que, mais cedo ou mais tarde, o tumor geralmente reaparece, o que chamam de recidiva.

Para entender por que isso acontece, imagine o DNA como o manual de instruções que cada célula consulta para se dividir. A temozolomida age borrando palavras-chave nesse manual. Se houver muitos borrões, a célula não consegue copiá-lo e morre.

Mas muitas células tumorais têm seu próprio revisor: uma proteína chamada O6-metilguanina-DNA metiltransferase (MGMT), capaz de apagar precisamente as manchas mais prejudiciais. Quando o gene responsável por essa proteína é silenciado, o benefício da quimioterapia geralmente é maior. Quando ele está ativo, no entanto, grande parte do poder do tratamento antitumoral se perde.

Além disso, há outro problema: o tumor não é um exército uniforme. Entre suas células, existem algumas com propriedades de células-tronco, o que significa que elas podem se autorrenovar e gerar novas células tumorais capazes de resistir ao tratamento e regenerar o tumor, como uma brasa reacendendo o fogo.

Essa diversidade ajuda a explicar por que um tratamento pode eliminar muitas células e, ainda assim, deixar outras capazes de manter a doença. Também explica o interesse em combinar intervenções. Se uma substância impede as respostas de sobrevivência da célula, ela pode ajudar a tornar o dano causado pela quimioterapia mais eficaz. E é aí que entra a melatonina.

Muito mais do que um remédio para dormir

Nosso cérebro produz melatonina à noite e a usa como um relógio: ela sinaliza para o corpo que é hora de descansar. Mas seu trabalho não termina aí. Ela também desempenha um papel na inflamação, nas defesas e na forma como as células gerenciam sua energia.

O curioso é que ela não se comporta da mesma maneira em todos os lugares. Em células saudáveis, a melatonina normalmente atua como um escudo contra danos oxidativos. Em algumas células tumorais, no entanto, ela interfere no mecanismo de produção de energia. Um estudo com células de glioblastoma obtidas de pacientes mostrou que a melatonina alterou a produção de energia e a regulação metabólica, levando, em última instância, à morte celular. Outros estudos sugerem que ela também modifica a comunicação do tumor com o sistema imunológico.

Por que essa dualidade? Porque as células cancerígenas vivem no limite, crescendo rapidamente, consumindo muita energia e dependendo de equilíbrios frágeis. Um estímulo que uma célula saudável pode absorver facilmente pode desestabilizar uma tumoral.

A ideia por trás da combinação das duas moléculas é simples: enquanto a temozolomida danifica o manual de instruções, a melatonina prejudica a capacidade da célula de se defender e se recuperar. Combiná-las seria como atacar o prédio e sua equipe de manutenção ao mesmo tempo.

Em laboratório, a ideia funciona. Em 2025, um estudo mostrou que, em culturas de células de glioblastoma, o efeito combinado superou a simples soma de cada substância separadamente. A mistura desativou os sinais que ajudam o tumor a sobreviver e inflamar, e ativou seus mecanismos de autodestruição.

Em camundongos, também retardou o crescimento do tumor. Mas há uma distinção importante: esses tumores foram implantados sob a pele do animal, não no cérebro. E o cérebro é uma fortaleza protegida por uma barreira que impede a passagem de muitas substâncias. O que funciona na lateral de um camundongo não necessariamente funciona dentro do crânio

Outro estudo, de 2018, teve como alvo os remanescentes com propriedades de células-tronco: a melatonina os tornou mais sensíveis à temozolomida, mas o efeito variou consideravelmente de um modelo experimental para outro.

Tratar um tumor cerebral não se resume a eliminá-lo. Também é importante preservar a memória, o humor e a capacidade de levar uma vida plena. E a quimioterapia, infelizmente, afeta o cérebro saudável.

Nesse aspecto, há outra pista promissora. Em camundongos sem tumor tratados com temozolomida, a melatonina preveniu comportamentos semelhantes à depressão e atenuou alterações na formação de novos neurônios, embora não tenha prevenido a ansiedade. Este é um resultado interessante, embora seja necessário demonstrar que ocorre em humanos e, sobretudo, é preciso ter em mente que proteger o tecido saudável não significa necessariamente proteger também o tumor.

Neste ponto, é tentador pensar que, se a melatonina está disponível na farmácia, por que não começar a tomá-la agora? Há pelo menos três razões para não fazê-lo.

A primeira é a dosagem. Muitos desses experimentos utilizam concentrações centenas de milhares de vezes maiores do que as que nossos corpos atingem naturalmente à noite. Ninguém sabe se um comprimido pode atingir níveis semelhantes dentro de um tumor cerebral, ou se seria seguro tentar.

A segunda é que existem muito poucos dados em humanos. O principal precedente clínico foi publicado em 1996: um pequeno estudo com 30 pacientes, no qual aqueles que receberam melatonina juntamente com radioterapia apresentaram uma taxa de sobrevida maior após um ano. Essa é uma descoberta impressionante, mas provém de um número muito pequeno de pacientes, é anterior ao advento da temozolomida e não responde à questão que nos preocupa hoje.

O terceiro ponto é que a adição de qualquer substância ao tratamento do câncer pode ter efeitos inesperados. Portanto, qualquer pessoa em tratamento não deve tomar melatonina para esse fim sem antes consultar sua equipe médica, e nunca como substituto das terapias prescritas.

Do laboratório ao consultório médico: tudo isso significa que a melatonina é uma falsa esperança? Não. Significa que uma boa ideia chegou ao ponto de ser submetida ao seu teste mais rigoroso. O próximo passo são os ensaios clínicos que determinarão, primeiramente, qual dose é segura e qual a quantidade que realmente atinge o tumor, e, em seguida, compararão o tratamento padrão com e sem melatonina. E não bastará medir quanto tempo os pacientes vivem: também será necessário medir como eles vivem, prestando atenção à memória, ao humor e à qualidade de vida.

Mas há um obstáculo adicional. Como a melatonina é uma molécula barata e sem patente, existem poucos incentivos comerciais para financiar esses estudos. A pesquisa pública e independente é, neste caso, essencial. Talvez, em alguns anos, o hormônio que nos ajuda a dormir também ajude a quimioterapia a funcionar melhor. Para saber com certeza, bons resultados em placas de cultura não bastam: precisamos de pacientes, pesquisa rigorosa e tempo.

*Alejandro Romero Martinez é profesor Titular de Toxicologia na Universidade Complutense de Madrid.

*Emma Sola Vendrell é professora de Toxicologia na Universidade Complutense de Madrid.

*Eva Ramos Alonso é profesora Titular de Toxicologia na Universidade Complutense de Madrid.

*Francisco López-Muñoz é catedrático de farmacologia e vicerrector de Investigacão e Ciência ma Universidade Camilo José Cela.

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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