M.I.A. improvisa e fala de Deus, Gaza e Lula em noite de culto a sua persona indomável

O show já ia para lá da metade quando a cantora atirou de sopetão o microfone na plateia. "Vocês é que vão falar!", ordenou. Um balbuciou a situação política do Brasil, outra mandou Trump para aquele lugar, o público começou a cantar o jing

Por Admin ·

M.I.A. improvisa e fala de Deus, Gaza e Lula em noite de culto a sua persona indomável

Nesse incontrolável fluxo de improviso, misto de cólera punk e pregação cristã, Mathangi Arulpragasam, mais conhecida como M.I.A ., fez sua apresentação em São Paulo nesta segunda (2), no Cine Joia. Foi um show único em que a artista exibiu, sem meias-palavras, a sua inquestionável complexidade —de heroína a vilã e vice-versa, um trajeto em quase 25 anos de uma carreira marcada por tantos sucessos quanto polêmicas.

A controvérsia mais recente foi em maio. Convocada para o show de abertura da turnê do rapper Kid Cudi , nos Estados Unidos, a cantora disse ao microfone: "Nunca tinha pensado que seria cancelada por ser republicana". Seguiram-se vaias, ao que ela respondeu: "Metade da minha equipe não está aqui porque são ilegais." Era a deixa para "Illygirl", canção que, em São Paulo, abriu o show.

O que veio antes da faixa por aqui também suscitou vaias. M.I.A. subiu ao palco com 45 minutos de atraso e uma plateia já desagradada. Tanto DJ quanto técnicos da casa optaram por segurar o público com uma sequência barata e nostálgica de funk. A impressão é de que veríamos uma M.I.A. presa no início dos anos 2000, quando ela e o produtor Diplo compuseram uma proposta autêntica de música pop combativa e antisséptica na mixtape "Piracy Funds Terrorism".

Nas paredes, os dizeres projetados: "Veja por sua conta em risco!". O vídeo de introdução do show era tão somente um rosto que falava, em tom enfurecido, temas polêmicos ou uma língua estranha —glossolalia bem a calhar com a fase atual da artista, que lançou seu próprio álbum gospel em abril. Parecia tudo plástico, quase lixo feito por IA (o tal "AI slop"), um palco para um teatro caricato de si mesma —até que M.I.A. entrou em cena.

Poucas faixas foram suficientes para que ela mostrasse porque ainda soa relevante, mesmo após ter encrespado o campo progressista ao se opor a vacinas durante a pandemia e demonstrar apoio a Trump na campanha presidencial de 2024. M.I.A. segue com uma qualidade invejável na música que a acompanha desde sua estreia: na sua mão, qualquer som ganha sua assinatura.