"Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las."
Lula acabara de vencer sua quarta eleição presidencial. Aos 80 anos, a dois dias de completar 81, prometia enfrentar as plataformas digitais que, segundo ele, haviam tentado interferir na vontade dos brasileiros.
Era noite de 25 de outubro de 2026. Pouco depois, subiria num trio elétrico na avenida Paulista para celebrar a vitória diante de uma multidão. Lula tinha motivos de sobra para estar feliz. Inclusive um que talvez preferisse ignorar: sem as redes sociais, teria perdido a eleição.
Três semanas antes, Flávio Bolsonaro vencera o primeiro turno . E não estava sozinho. O bolsonarismo avançara no Congresso, ampliara sua presença no Senado e demonstrara uma força eleitoral que surpreendeu seus adversários. A perspectiva de entregar a Presidência e uma poderosa base parlamentar ao mesmo campo político deixara de ser uma abstração.
Para boa parte dos analistas, a eleição estava praticamente resolvida. Lula havia perdido uma disputa sobre a continuidade de seu governo. Por que venceria outra, apenas três semanas depois?
Havia ainda uma evidência histórica aparentemente irrefutável: desde a redemocratização, nenhum candidato que chegara em primeiro lugar no primeiro turno de uma eleição presidencial brasileira havia perdido o segundo.
Uma regularidade estatística transformada em destino político.
O curioso é que bastava olhar para as eleições de governadores e prefeitos para perceber a fragilidade daquele raciocínio. Em aproximadamente uma de cada quatro disputas decididas em segundo turno, vence quem havia chegado em segundo lugar no primeiro. O eleitor brasileiro, ao contrário do que pareciam supor alguns especialistas, não assina um contrato de fidelidade quando deposita seu voto na urna.
O problema daquela previsão não estava propriamente na resposta. Estava na pergunta. Supunha-se que os brasileiros responderiam em 25 de outubro à mesma questão que haviam respondido no dia 4.
Em 2025, entrevistado pelo jornal O Globo sobre a eleição presidencial do ano seguinte, afirmei que seria uma disputa de mudança e que Lula perderia. O primeiro turno confirmou a primeira parte daquela previsão.
Os brasileiros queriam mudança, mas rejeitar um governo não significa necessariamente desejar qualquer alternativa que se apresente para substituí-lo.
A dimensão da vitória de Flávio mudou o que estava em jogo. O resultado que parecia tornar sua eleição inevitável podia, ao contrário, desencadear a reação que a impediria.