O resultado surpreende quando se volta três semanas no tempo: a vitória na primeira etapa do pleito de Flávio parecia consolidar o primogênito de Jair Bolsonaro como o virtual eleito.
Ministros foram ventilados, alianças estabelecidas, planos de mudanças na Constituição anunciados, e a longa ficha de suspeitas associadas ao candidato parecia rumar ao arquivo.
O feito de Lula passou por uma combinação de desempenho no Nordeste e em Minas Gerais e uma impressionante queda da abstenção, fruto de mobilização inaudita na esquerda em anos. Tudo isso decorreu da superação de uma série de erros políticos graves.
A exemplo do que ocorrera com Joe Biden antes de desistir da candidatura contra Donald Trump em 2024, o petista apostou que sua defesa da democracia na esteira do 8 de Janeiro e bons indicadores gerais da economia lhe garantiriam triunfo fácil.
A instância democrática se confundiu com uma aliança com a bancada de Alexandre de Moraes do Supremo. Os abusos do inquérito das fake news e o caso Master quase lhe foram fatais, ainda que o presidente não fosse ligado a Daniel Vorcaro como seu adversário.
Na economia, o foco desviado do endividamento das famílias e da renda deu munição a Flávio, que juntou ao pacote a dificuldade da esquerda com o tema da segurança pública. Não havia " feelgood factor ", sensação de bem-estar social, para vender.
Nem Trump lhe ajudou dando declarações favoráveis a Flávio, esvaziando o discurso sobre soberania. O papel de vilão estrangeiro ficou para a Meta.
O registro de mais uma vaga direitista nas votações estaduais e para o Legislativo no primeiro turno parecia selar o fracasso lulista, mas o petista promoveu uma guinada.
Levou mobilização para as redes, cortesia do antes desprezado André Janones (Rede-MG), e para as ruas. O avanço do canal Exército do Lula foi fundamental na galvanização desse processo, simbolizado pelo ato gigantesco na avenida Paulista na véspera da eleição.
O presidente também recorreu à última gota de tinta na caneta, somando quase R$ 300 bilhões em anúncios de toda sorte. Os coelhos tirados de seu chapéu Panamá incluíram o fim das bets, perdão de dívidas de microempreendedores, subsídios, antecipações de um Bolsa Família vitaminado, fim da escala 6x1 e outros.
O custo disso para a solvência fiscal será conhecido em 2027, quando Lula terá de optar entre o caminho de Dilma ou um estelionato mais eficaz do que o adotado pela antecessora em 2015.
A relação com o Congresso hostil será determinante. Se o bolsonarismo e faixas à direita são prevalentes, Lula sabe que o centrão está lá para fazer negócios e acordos. Como driblar o gesso das emendas é uma incógnita.
O mais importante para o presidente é a areia que escorre da ampulheta. A perspectiva de um último mandato o fará guinar para a esquerda que nunca abraçou de verdade? Pode ser, mas isso remeteria ao risco de emular Dilma. Assim, o caminho a composições parece ser o mais provável, deixando dúvidas acerca do que fará a direita.
A grande musculatura adquirida pelo campo conservador tende a garantir protagonismo no cenário político, a despeito do fracasso de Flávio. É previsível também questionamento do resultado dada a grande mobilização por parte da direita, ainda mais com a confusão em torno do adiamento da votação.