Lula precisa 'fazer um Alckmin'

Quem se lembra de 2006? Há exatos 20 anos, Alckmin realizou a proeza de perder 2,4 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno. Lula não precisava daquilo para se reeleger: saíra do turno inicial com 48,6% dos votos, contra 41,6% do

Por Admin ·

Lula precisa 'fazer um Alckmin'

O paralelo numérico oculta as circunstâncias. Em 2006, Lula era amplo favorito. Impulsionado pela ventania de cauda do ciclo mundial, o PIB crescia aceleradamente, enquanto a relação dívida/PIB reduzira-se de 55,5% em 2003 para 44,9% no ano eleitoral. Com Palocci ao volante, o populismo econômico manifestava-se nas estatais e no BNDES, mas não contaminava a política fiscal.

O cenário atual é muito diferente. A pandemia deixou marcas no custo de vida. A guerra tarifária e duas guerras regionais simultâneas provocam choques sucessivos nos preços dos combustíveis e dos alimentos. O crescimento do PIB experimenta redução desde o final de 2024. Sob um expansionismo fiscal desenfreado, o BC é obrigado a praticar elevadas taxas de juros e a relação dívida/PIB saltou quase dez pontos percentuais desde 2023, para estratosféricos 83%. "Fazer um Alckmin" não é missão banal.

Em 2006, havia uma ferida aberta. O escândalo do mensalão , que explodiu no inverno de 2005, decepou José Dirceu e contribuiu para o resultado promissor do postulante do PSDB no primeiro turno. Mas o próprio Alckmin destruiu sua campanha, ao comparecer à primeira entrevista da reta final ostentando broches das estatais na camisa. Sua réplica visual à (falsa) acusação de que pretenderia privatizar a Petrobras implicava absorver a narrativa e a linguagem de Lula, renunciando à ofensiva.

As pesquisas correntes de segundo turno oferecem indícios de sangria nas intenções de voto de Flávio. Na linha do Alckmin de 2006, o candidato bolsonarista retrocedeu à trincheira defensiva, reiterando incessantes negativas frente às (verdadeiras) acusações lulistas. O 01 promete de joelhos, noite e dia, que não cortará gastos sociais, contradizendo seu programa de redução escalonada de R$ 250 bi nas despesas públicas. Nessas condições, não é impossível "fazer um Alckmin".

A resposta certa do Alckmin de 2006 teria sido falar a verdade: apontar a falsidade do autoacusatório lulista, mas, simultaneamente, denunciar os investimentos excessivos da Petrobras e explicar que privatizações seletivas servem ao interesse público.

A resposta correta do Flávio de 2026 teria sido, igualmente, recorrer à verdade: reiterar o projeto de contenção da dívida pública, dizendo aos eleitores o mesmo que fala aos agentes do mercado. No fim das contas, qualquer um capaz de fazer contas sabe que, com Flávio ou Lula, e apesar da retórica eleitoreira, o Brasil não tem alternativa senão acertar suas contas. A verdade não é, contudo, o ponto forte de nenhum candidato.

Duas décadas atrás, Lula saltou 11,6 milhões de votos no curto intervalo entre os dois turnos, levando sufrágios de Heloísa Helena e Cristovam Buarque. Inexiste, agora, um estoque de eleitores de candidatos de esquerda. Sua melhor chance é "fazer um Alckmin". Optando pela duplicidade discursiva, Flávio colaborou. Será o bastante?