A lambança protagonizada por TSE e STF abre margem para os questionamentos feitos pela campanha de Flávio. Será simples mostrar, contudo, que os poucos votos adicionais depositados nas urnas cujo horário foi estendido nem de longe explicam a vitória decisiva de mais de 4 milhões de votos. O próprio presidente do TSE, Nunes Marques, insuspeito de ser lulista, reconhece a lisura do resultado.
Com essa vitória, o Brasil foi poupado da incógnita institucional do que seria um governo Flávio. Mas a perspectiva para o quarto governo Lula é desafiadora. Lula terá que governar com o Congresso —especialmente Senado — mais hostil que ele já teve . O Supremo, que tantos serviços lhe prestou no terceiro mandato, está agora mais acuado e dependerá do aval do Senado de direita para preencher a vaga faltante. Flávio não ganhou, mas a bandeira de impeachment de ministros continua viva e os senadores enfrentarão a cobrança de seus eleitores.
Lula se deparará também com uma situação econômica de endividamento público crescente e juros altos, fazendo a economia parar. A conta a ser paga a partir do ano que vem é ainda mais elevada graças aos gastos desenfreados na reta final das eleições . Aumento e antecipação do bolsa-família, subsídio e desoneração dos combustíveis, Desenrola dos MEIs, "Pix MEI", transporte gratuito nos fins de semana. A IFI (Instituição Fiscal Independente) estima em R$ 63,2 bilhões as despesas já contratadas durante as eleições para 2027.
O que Lula fará quanto a esses dois desafios, o da governabilidade e o da economia? Quanto ao segundo, ele tem dado uma resposta muito clara ao longo da campanha: o caminho para reduzir a razão dívida/PIB não é cortando gasto, e sim fazendo o PIB crescer. Por isso mesmo não precisou se comprometer com nenhum corte. Agora chegou a hora de revelar se esse discurso será mesmo a política econômica de Lula 4 ou se algum tipo de ajuste fiscal fará parte do novo mandato.
Na outra frente, a da governabilidade, Lula não foi tão claro ao longo da campanha. Mas ontem, nos discursos que se seguiram à vitória, deu uma pista: ao louvar Janones, disse que a comunicação direta com o povo —falando e ouvindo— será agora parte de seu governo. Criticou a imprensa e prometeu a regulação das plataformas digitais. De fato, a mobilização popular —nas ruas e nas redes— é um ativo que deve continuar com o governo mesmo depois da vitória. E desde o ano passado vimos como a pressão popular pode forçar o Congresso a mudar seu curso (como na PEC da Blindagem). Desta vez, ao contrário de 2022, nenhum partido de centro ou de direita veio compor com Lula; é Lula e o povo, ou esse parece ser o recado.