Lula é reeleito presidente do Brasil após virada inédita contra Flávio Bolsonaro

25/10/2026 21h10 Atualizado 25/10/2026 23h34 Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, foi reeleito neste domingo presidente da República para um quarto mandato, numa virada inédita desde a redemocratização brasileira. O ex-torneiro mecâ

Por Admin ·

Lula é reeleito presidente do Brasil após virada inédita contra Flávio Bolsonaro

25/10/2026 21h10 Atualizado 25/10/2026 23h34

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, foi reeleito neste domingo presidente da República para um quarto mandato, numa virada inédita desde a redemocratização brasileira. O ex-torneiro mecânico, que há duas décadas se tornou o primeiro operário a governar o país, confirmou sua recondução ao cargo. Após 96,83% das urnas apuradas, ele tinha 51,74% dos votos válidos, contra 48,26% do senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário. A vitória petista foi garantida às 21h09.

Lula x Flávio: veja o mapa de apuração do segundo turno pelo Brasil Em virada inédita, Flávio Bolsonaro protagoniza segunda derrota consecutiva do bolsonarismo e força direita a discutir renovação

As urnas foram 100% apuradas às 23h21: o petista terminou com 51,79%, contra 48,21% do senador do PL. Lula conquistou 68.256.232 votos, e Flávio obteve 59.826.041 no resultado final.

Durante a reta final da campanha, Lula e Flávio chegaram ao domingo da eleição empatados tecnicamente dentro da margem de erro , porém com uma vantagem numérica para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Na Datafolha, Flávio aparecia com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula. A Quaest mostrou um cenário semelhante: Flávio com 51% das intenções de votos válidos, contra 49% de Lula.

Lula saiu atrás no primeiro turno de Flávio Bolsonaro, conquistando 45,16% dos votos, ante 47,03% do senador do PL. A diferença foi de 2.224.965 votos, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Como relatou Thomas Traumann na edição deste domingo , o presidente que deixou o hotel Renaissance, em São Paulo, na noite do primeiro turno de 2026, havia desaprendido a perder uma eleição. Dos últimos seis pleitos presidenciais, o PT venceu cinco, e a única derrota aconteceu com Lula preso.

O tom da campanha mudou completamente no segundo turno. Quatro anos após o discurso da vitória de 2022, em que exclamou “Tentaram me enterrar vivo, mas eu ressuscitei”, o presidente demonstrou sua capacidade de ressuscitar.

No dia seguinte à derrota, enquanto o PT se engalfinhava em busca de culpados, milhares de estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram do Campus do Gragoatá e percorreram ruas de Icaraí e do Centro de Niterói para defender Lula. Dias depois, outros milhares de jovens ocuparam a praça da Candelária, no Rio. O movimento se espalhou pelo país. A esquerda, que desde 2013 estava sumida das ruas, ressurgiu num movimento orgânico, sem partido e unida pela rejeição ao bolsonarismo.

Em Brasília, Lula defenestrou o que ele mesmo definiu como o comando da “campanha mais desorganizada da história”. O senador Camilo Santana (PT-CE) assumiu a coordenação e o governador do Piauí, Rafael Fonteles, reorganizou a comunicação. O deputado André Janones (Rede-MG) abriu espaço a cotoveladas para criar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que em duas semanas reuniu mais de 10 milhões de membros.

Na sua nona e última campanha eleitoral, Lula mudou com a ameaça de encerrar a carreira com uma derrota. Segundo quem convive com ele, passou a ouvir mais e teimar menos.

O Lula que ressuscitou no segundo turno e eleito neste domingo é um candidato que foi obrigado a se atualizar rápido. Após anos de ojeriza às redes, ele passou a gravar vídeos diários na vertical, em formato de selfie. Até o chapéu que ele insistia em usar, mesmo em entrevistas de estúdio, foi deixado de lado. Conceitos distantes da população como a soberania nacional e o controle da exploração das terras- raras foram substituídos por temas urgentes como a redução da jornada de trabalho e a renegociação de dívidas. Pela primeira vez em quatro anos, Lula reconheceu que seu governo cometeu erros e que a população tem motivos para estar insatisfeita.

Depois de deixar a Presidência em 2010, com 87% de aprovação, o petista viu sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), sofrer um processo de impeachment (2016); ficou preso por 580 dias por corrupção passiva e lavagem de dinheiro (2018-2019); e teve as condenações anuladas por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2022, 1.087 dias depois de deixar a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, tornou-se o primeiro brasileiro da História a ser eleito três vezes para o principal cargo do Executivo — e agora renovou o recorde pessoal com a reeleição.

Com o novo triunfo, Lula agora tem mais vitórias do que derrotas. Em 1989, na primeira eleição direta após a redemocratização, o ex-metalúrgico foi derrotado por Fernando Collor (PRN) no segundo turno por uma diferença de pouco mais de 4 milhões de votos (53% a 47%).

Nos dois pleitos seguintes — primeiro com Aloizio Mercadante (hoje seu coordenador de plano de governo) e depois com Leonel Brizola (PDT) como vice —, foi superado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em primeiro turno.

A primeira vitória veio em 2002, superando José Serra (PSDB), seguida de reeleição contra o então tucano Geraldo Alckmin, agora no PSB e seu vice. A partir de 1º de janeiro de 2027, Lula assume o quarto mandato — e provavelmente seu último, já que terá 84 anos ao fim do próximo ciclo — com o desafio de encarar um aumento de violência no território; uma crise no Judiciário, principalmente entre integrantes do STF; e problemas no orçamento, com gastos obrigatórios espremendo as verbas discricionárias.

Apesar da vitória, Lula teve um terceiro mandato com problemas de popularidade. Lideranças petistas avaliam ainda que parte das dificuldades que vieram à tona na campanha são resultados de erros cometidos desde o início do mandato. Em uma opção vista como “arrogante” por uma parcela dos seus aliados, Lula não levou a “frente ampla” formada para a disputa contra Jair Bolsonaro para o centro de sua gestão, apesar da vitória apertada sobre o ex-presidente em 2022.

Simone Tebet, terceira colocada há quatro anos, ficou à frente do Ministério do Planejamento, pasta ofuscada pela Fazenda. Já Alckmin recebeu tarefas importantes do presidente, mas não teve papel central nas decisões, nem integrava o núcleo mais próximo a Lula. Bandeiras históricas defendidas pelo ex-tucano, como o controle minucioso do gasto público, não fizeram parte do cardápio adotado pelo governo.

O maior exemplo da pouca amplitude da gestão se deu na escolha dos ministros que formaram o núcleo central. Apesar de ter distribuído pastas para partidos do Centrão, como PP e União Brasil, Lula restringiu ao PT a participação nos ministérios que possuem gabinete no Palácio do Planalto. Para a definição dos nomes, misturou os critérios de nostalgia e gratidão. No primeiro grupo, entraram Alexandre Padilha, responsável inicialmente pela articulação política, posto que já havia ocupado entre 2009 e 2010, e Rui Costa, escalado para chefiar a Casa Civil com a missão de repetir a atuação de Dilma Rousseff. Era uma tentativa de reproduzir o modelo de organização do governo do segundo mandato, em que conseguiu atingir 83% de popularidade.

Já entre os premiados pela gratidão estavam aqueles que ficaram ao lado de Lula durante os 580 dias de prisão, entre 2018 e 2019, como Paulo Pimenta, que foi para a Secom, e Márcio Macedo, nomeado para a Secretaria-Geral — os dois deixaram os cargos ao longo da gestão. No caso de Pimenta, a saída ocorreu após um processo de desgaste em que o próprio Lula reclamou publicamente da comunicação.

Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.