A página da revista Nature trouxe na segunda-feira (19) notícia instigante de que LSD ingerido em doses não psicodélicas (microdoses) traz benefício cognitivo menor para homens do que para mulheres. Para um simples pôster em congresso, ganhar atenção do influente veículo científico constitui verdadeira façanha.
O trabalho havia sido apresentado uma semana antes no congresso anual do Colégio Europeu de Neuropsicologia (ECNP), em Munique, por Iva Totomanova. A psicofarmacologista trabalha na Universidade de Maastricht ( Holanda ), centro de excelência em pesquisa psicodélica.
Um grupo de 48 voluntários, metade do sexo feminino, recebeu 15 microgramas de LSD ou placebo e foi submetido a vários testes de cognição. Em dois deles se verificaram diferenças segundo o sexo dos participantes, com mulheres mantendo a atenção por períodos mais longos e respondendo mais rapidamente a estímulos.
A notícia instiga por dois motivos: primeiro, porque o impacto positivo da microdosagem ainda é objeto de controvérsia ; depois, porque ainda se sabe quase nada sobre a influência das fases hormonais femininas no efeito de substâncias alteradoras da consciência.
"Apesar de os resultados indicarem uma modesta melhora no tempo de reação em mulheres, trata-se de um estudo pequeno, cujos resultados devem ser interpretados com cautela", ressalva Dimitri Daldegan Bueno, psicólogo brasileiro que pesquisa microdoses na Universidade de Auckland ( Nova Zelândia ).
"Os resultados contradizem um estudo de maior porte com microdosagem, que não observou melhoras cognitivas em homens. O aspecto mais importante desse estudo é indicar que podem existir diferenças no efeito da microdose conforme o gênero, tendo em vista que as mulheres são historicamente sub-representadas em pesquisas."
"Esse tipo de análise é uma ideia muito importante e oportuna. Sabemos pouco sobre a influência do sexo nos efeitos psicodélicos", avalia Isabel Wiessner, pesquisadora do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN). Ela publicou vários artigos sobre impactos do LSD na cognição .
Para a psicóloga alemã radicada no Brasil, estudos psicodélicos precisariam ter o quádruplo de mulheres em relação ao número de homens, "pois elas passam por quatro fases de ciclo menstrual associadas a diferentes expressões hormonais que podem afetar diferencialmente as experiências psicodélicas e a eficácia terapêutica". Wiessner também é coautora de estudos do ICe-UFRN com DMT para tratar depressão .
A farmacocinética (como o corpo interage com uma droga) e a farmacodinâmica (como a droga interage com o corpo) de psicodélicos no corpo feminino, em diversos estados hormonais cíclicos e diferentes fases da vida, estão no foco do grupo em Maastricht de que participa Totomanova. Esse foi o tema de um artigo de revisão que ela e outras pesquisadoras da universidade publicaram em agosto no periódico Molecular Psychiatry.
Nessa equipe estão também Natasha Mason e Eline Haijen-Bongers, que a jornalista Shayla Love entrevistou para o boletim The Microdose, da Universidade da Califórnia em Berkeley. O texto na seção 5 Questões saiu também na segunda-feira, em que o título questionava: "O ciclo menstrual altera a experiência psicodélica?".
A pergunta faz sentido porque há mais de uma conexão metabólica dos hormônios estrogênio e progesterona com o receptor de serotonina (5HT2a) ao qual se ligam psicodélicos como LSD, psilocibina ( cogumelos ) e DMT ( ayahuasca e jurema-preta ). Como explica Haijen-Bongers, quando o estrogênio se eleva antes da ovulação, aumenta a densidade de receptores 5HT2a, em princípio aumentando a sensibilidade de mulheres aos alteradores de consciência nessa fase do ciclo.
Independentemente do ciclo hormonal, de resto, a equipe de Maastricht publicou também em agosto –desta vez no repositório aberto bioRxiv, ou seja, sem passar pelo crivo de revisores especialistas– outro artigo sobre diferenças sexuais e psicodélicos . Neste caso, assinalaram que mulheres experimentam viagens mais intensas, na comparação com homens, acompanhadas de vigilância, cognição e controle reduzidos.
"Deveríamos preparar as mulheres para se sentirem mais intoxicadas, para ficarem mais incapacitadas. As pessoas que as guiam [em sessões psicodélicas] também devem estar cientes disso e assegurar que possam ajudá-las ao longo da sessão", alertou Mason na entrevista a Love. Numa palavra, elas se tornam mais vulneráveis, vale dizer, sujeitas a abusos , tema pouco tratado na voga de entusiasmo com psicodélicos.