Livro de Pierre Verger mostra como tabaco trouxe cultura iorubá ao Brasil

[RESUMO] Compilação de textos de Pierre Verger inéditos em português descreve influência marcante da cultura iorubá, referente a um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental, no Brasil desde a época da escravidão. Fruto dos

Por Admin ·

Livro de Pierre Verger mostra como tabaco trouxe cultura iorubá ao Brasil

Bem antes de ser visto como uma questão de saúde pública, o tabaco foi um dos responsáveis pela chegada da cultura iorubá ao Brasil. Ao longo dos séculos 18 e 19, comerciantes da Bahia usavam o produto para adquirir mão de obra escrava vinda da África .

O tabaco negociado em esquema de permuta era conhecido como refugo, uma mercadoria de má qualidade considerada imprópria para consumo na Europa, mas que ganhou espaço na então Costa da Mina (território hoje formado por Benim, Gana, Nigéria e Togo).

O texto que detalha o papel do fumo no tráfico negreiro faz parte da mais recente coletânea de ensaios do antropólogo franco-brasileiro Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), intitulada "Iorubahia - Escritos Raros sobre a Cultura Iorubá e as Relações entre Brasil e o Golfo do Benim".

Organizado pela doutora em etnomusicologia e antropologia Angela Lühning, o livro reúne 12 títulos escritos originalmente entre as décadas de 1960 e 1970. Neles, Verger busca entender as influências culturais do continente africano em solo brasileiro.

"O Fumo da Bahia e o Tráfico de Escravizados no Golfo do Benim", presente na primeira parte do livro, explica como o refugo contribuiu para o tráfico negreiro. O fumo expelia um aroma açucarado e se tornou um produto valorizado por autoridades e reinos locais da costa africana.

Não demorou a ser usado como moeda de troca para trazer mão de obra escravizada ao Brasil. De origem iorubá, essas pessoas influenciariam a culinária e a escrita no país.

Anos depois, os ensaios presentes nesta primeira seção do livro também serviriam como base para a tese de doutorado de Verger em estudos africanos pela EPHE (École Pratique des Hautes Études), em Paris, em 1966.

Conhecido por seu trabalho como fotógrafo , ele fixou residência em Salvador em 1946, onde trabalhou para a revista O Cruzeiro. Ao longo de sua trajetória, interessou-se pela cultura iorubá e passou anos vivendo entre o Brasil e a Nigéria para aprofundar seus estudos antropológicos sobre o tema. Foi a partir dessa vivência que os textos de "Iorubahia" surgiram.

A coletânea está dividida em três eixos temáticos que se dedicam a estudar diferentes aspectos da cultura iorubá. O primeiro aborda o impacto das relações históricas e comerciais entre o golfo do Benim e o Brasil, sobretudo em Salvador.

O segundo se aprofunda no estudo do culto aos orixás e do estado de transe durante as cerimônias de adoração às divindades. E o terceiro abrange o uso litúrgico de plantas e o sistema de divinação Ifá, uma tradição religiosa do povo iorubá.

"O livro permite uma leitura que parta de qualquer um desses assuntos. Não existe uma ordem pré-definida e obrigatória. O interesse e a curiosidade do leitor por determinado tema podem servir como guia ao longo da leitura", diz Lühning, que é professora titular aposentada da Escola de Música da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Parte dos textos contidos no livro são rascunhos iniciais, outros foram criados para palestras e debates e alguns são publicações acadêmicas, mas todos encontram na obra a primeira versão em português.