Ao comparecer ao funeral de um paroquiano neste verão, ele tocou o corpo, seguindo as práticas funerárias tradicionais do Congo. Poucos dias depois, começou a se sentir mal. "Eu estava com febre e sentia tanto calor que não conseguia dormir. Só suava e tossia", conta.
Nos primeiros dias do surto, muitas pessoas dizem que não sabiam como se proteger do vírus. "Se alguém estendesse a mão, eu apertava", afirma Kasereka.
Mas, depois que Kasereka adoeceu, sua filha insistiu para que ele buscasse tratamento na nova clínica de ebola. Ela sabia da importância do tratamento precoce, pois havia ajudado no combate a outro surto de ebola em 2019, ali mesmo em Mongbwalu, uma cidade remota espalhada por colinas e cercada por minas de ouro informais.
Quatro dias após dar entrada na clínica e testar positivo para ebola, Kasereka recebeu alta após obter resultado negativo em um novo exame. Ele atribui sua recuperação à filha.
"Como minha família estava bem-informada, recebi tratamento cedo", diz. "Mas, se você esperar e só aparecer depois que os vômitos e a diarreia começarem, geralmente é tarde demais."
Kasereka agora usa sua posição como membro da Igreja e sua condição de sobrevivente do ebola para divulgar a importância do tratamento precoce e combater alegações amplamente difundidas de que a doença teria sido inventada por estrangeiros para matar os moradores locais e roubar suas terras ricas em minérios.
"As pessoas inventam explicações misteriosas para as doenças quando não as compreendem", diz o padre Richard Dieudonne Ivale, pároco da paróquia de Kasereka.
O surto no Congo matou pelo menos 4.687 pessoas desde maio, tornando-se a epidemia de ebola de propagação mais rápida já registrada. Também alcançou sua maior extensão até hoje, com casos em Uganda, no Quênia e na Nigéria. Pelo menos 346 pacientes com ebola morreram na clínica de Mongbwalu.
Mas profissionais de saúde concordam que as infecções estão começando a diminuir na região, em parte graças ao trabalho eficaz de conscientização comunitária realizado tanto por profissionais de saúde quanto por líderes religiosos.
"Eu só posso transmitir a mensagem médica, e isso nem sempre funciona, mas os padres estão usando sua autoridade para transformar essa mensagem em algo espiritual, relacionado à Bíblia", diz a médica Marie Roseline Belizaire, representante da OMS (Organização Mundial da Saúde) na África .
"Ouvi um padre fazer um sermão no qual mencionou o mandamento: ‘Não matarás’. Ele disse que, ao não levar os doentes para receber tratamento, as pessoas estavam, na prática, matando-os. É uma mensagem muito forte."
O Congo tem a maior população católica romana da África: cerca de um terço dos 117 milhões de congoleses se identifica como católico . A Igreja é uma das poucas instituições do país com uma infraestrutura nacional em funcionamento. Segundo o Vaticano, ela presta serviços sociais, mantendo hospitais e cerca de metade das escolas do país.
A Igreja também exerce influência sobre a política e o cotidiano de uma nação devastada por décadas de conflitos.
Durante a missa na igreja Nossa Senhora da Caridade Materna, os fiéis recebem álcool em gel antes da Sagrada Comunhão, enquanto os padres compartilham as informações mais recentes sobre o ebola e lembram as centenas de paroquianos de seguir práticas funerárias seguras.
O vírus do ebola é altamente contagioso após a morte da vítima e pode infectar qualquer pessoa que entre em contato com o corpo.
Antes de uma celebração em junho, os integrantes do coral cantaram para comemorar a recuperação de dois meninos que haviam contraído o vírus.
"Fomos os primeiros a começar a informar as pessoas por meio da nossa igreja e da nossa rádio", diz Ivale. "Temos comunidades espalhadas por toda a província e repassamos informações verdadeiras para que elas as compartilhassem. Agora as pessoas começaram a entender. Houve uma grande mudança. Tivemos de fazer um amplo trabalho de conscientização para que a população acreditasse que o ebola existe."
A Igreja Católica não está sozinha na tentativa de desfazer a desinformação. Em uma manhã recente de domingo, dentro da igreja evangélica Visão da Escada, em Mongbwalu, o pastor Paul Kayongo estava apenas começando a se empolgar.
Vestindo um paletó brilhante com estampa de folhas douradas sobre a camisa clerical vermelha, ele dançava, balançando os quadris e mantendo as palmas das mãos voltadas para cima, enquanto mulheres cantavam em suaíli. Um guitarrista, um baterista e um tecladista tocavam instrumentos amplificados por um gerador que também alimentava uma única lâmpada fluorescente acima do púlpito.