Leia a íntegra do discurso do presidente Lula, reeleito neste domingo

O presidente Lula (PT) foi reeleito neste domingo (25), derrotando o senador Flávio Bolsonaro (PL) por uma diferença de cerca de 4,5 milhões de votos. Ele comemorou a vitória com aliados na capital paulista.

Por Admin ·

Leia a íntegra do discurso do presidente Lula, reeleito neste domingo

No discurso da vitória , prometeu mudar o jeito de governar, trabalhar junto ao Congresso dominado pela direita bolsonarista e regular as redes sociais. Leia a seguir a íntegra comentada do discurso.

Feliz o presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade que eu tenho no [Geraldo] Alckmin [PSB]. A primeira coisa é que hoje a minha fala para a imprensa é agradecimento. Nós tivemos o menor número de abstenções da história desse país. Nós tivemos o menor número de votos nulos deste país.

As taxas de abstenção e de votos inválidos no segundo turno registraram uma queda recorde em relação ao primeiro turno e atingiram os níveis mais baixos em 20 anos. Três milhões de pessoas que não votaram na primeira fase o fizeram neste domingo (25). A abstenção neste segundo turno foi de 19,22%, percentual mais baixo para esta etapa desde 2006.

E eu tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a nossa campanha, aos partidos que participaram junto conosco, mas eu queria agradecer ao povo brasileiro, a generosidade que eles têm comigo há muito tempo. E nesse segundo turno, agradecer a generosidade da juventude brasileira que foi para a rua, foi para rua para defender a democracia.

Quero agradecer às pessoas idosas. Eu vi cenas hoje de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para ir votar, pessoas impossibilitadas de se locomover, pessoas com câncer e com outros tipos de doença. E as pessoas foram votar porque nós conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar a democracia no país. Quero agradecer à sociedade como um todo.

Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais , que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país.

No início de outubro, a campanha de Lula levou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a acusação de que a Meta, empresa que controla o Instagram, Facebook e WhatsApp, estaria interferindo na disputa eleitoral a favor do candidato do PL. A Folha revelou que funcionários da empresa americana admitiram em mensagens internas restrições que prejudicaram as contas do presidente no Instagram.

Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, foi uma derrota da mentira. E eu confesso a vocês que cada vez que eu ia em um debate eu ficava constrangido, porque eu já debati com muita gente, já participei de muitas eleições, me reúno todo ano com G20, com os Brics, com G7, me reúno todo ano com os principais presidentes do mundo discutindo os principais assuntos do mundo, mas eu nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do milicianismo desse país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez. Como se não tivesse dentro dele uma célula de humanismo. Parece tudo falso.

O debate na Band , no dia 18 de outubro, foi um dos momentos mais marcantes da eleição. No encontro, Flávio Bolsonaro repetiu frases de efeito, garantiu cortes para as redes sociais, fugiu de perguntas e assumiu uma postura provocativa e debochada contra o petista. Lula se deixou influenciar pelo comportamento do adversário, ficou irritado, exaltou-se em vários momentos e teve dificuldade de controlar a discussão.

Eu estou dizendo isso porque vocês sabem que o que eu vi nesse segundo turno dessas eleições, o que eu vi em todos os estados brasileiros, mas sobretudo o que eu vi na avenida Paulista ontem , é algo que eu não acredito –que o Alckmin, que foi governador, que participou da campanha das Diretas–, a gente nunca conseguiu ver, não só pela quantidade de gente, mas pelo entusiasmo.

E eu fiquei muito emocionado porque me deu vontade de pedir na frente do Masp (Museu de Arte de São Paulo), pra cantar o Hino da Independência. E eu fiquei boquiaberto de ver o entusiasmo das pessoas cantando o Hino da Independência, sobretudo quando falava "brava gente brasileira, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil", numa demonstração de que esse país não aceita ser quintal de ninguém. Como disse uma vez o meu cantor preferido, Chico Buarque de Hollanda, ele gostava do nosso governo porque o nosso governo não falava grosso com a Bolívia e não falava fino com os Estados Unidos. A gente falava igual com todo mundo.

A sucessão de tarifaços, declarações dúbias do presidente americano Donald Trump e atritos diplomáticos inusuais estimulados pela família Bolsonaro causaram apreensão sobre a possibilidade de escalada da interferência estrangeira na eleição presidencial, com objetivo de favorecer Flávio.

A classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas, por exemplo, foi anunciada pelos Estados Unidos dois dias após visita de Flávio Bolsonaro a Trump. Enquanto a campanha petista colocava o tema da soberania nacional como um dos principais motes eleitorais, bolsonaristas incentivavam a intervenção americana em manifestações de rua.

Eu quero agradecer a esse companheiro aqui, o [André] Janones, [deputado federal por Minas Gerais], nosso general que teve um papel exponencial nessa campanha para levantar diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa. Não vou falar aqui para vocês, mas essas eleições me ensinou (sic) muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país. Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais nas nossas decisões. E quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo. Eu inclusive já ganhei um celular do meu comandante Rafael [Fonteles], governador do Piauí. Já estou aprendendo a conversar com meu general e pode ficar certo que daqui pra frente eu vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço.

O deputado federal André Janones (Rede) liderou a reação digital a favor de Lula depois do primeiro turno, promovendo uma guinada na atuação da esquerda, que vinha patinando na comunicação nas redes sociais, terreno até então dominado pelo bolsonarismo.

O parlamentar conseguiu reunir quase 11 milhões de pessoas no canal "Exército do Lula" no WhatsApp, no qual designou tarefas para os seguidores, orientando a publicação de comentários e conteúdos nas redes. Janones controlou o debate no meio digital e colocou Flávio e seus aliados na defensiva —eles tentaram, inclusive, derrubar o canal com pedidos ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Nessas eleições, eu quero que vocês saibam que uma das coisas que mais me motivou é a gente não permitir que essa gente ganhasse para privatizar o nosso SUS [Sistema Único de Saúde]. Mais uma vez quero dizer para vocês que na medida que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões, tenho que governar para todas as idades. Mas no próximo mandato eu vou levar muito a sério a política de cuidado com os nossos velhinhos, que são responsáveis pela nossa existência. Quero dizer para vocês que as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras. Quero dizer para vocês que as religiões serão todas respeitadas em igualdade de condição. Eu não tenho preferência por nenhuma religião. Eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro. E que eles exerçam a sua fé e a sua espiritualidade do jeito que eles quiserem. Ao Estado laico cabe garantir a liberdade religiosa plena para que as pessoas possam exercitar a sua fé com plenitude.

Lula parece responder a outro episódio marcante da eleição: a disseminação da notícia falsa que dizia que Flávio Bolsonaro destituiria Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil caso fosse eleito.

O boato foi inflamado por uma declaração do senador em agosto, quando ele afirmou que um de seus primeiros atos, se vencesse o pleito, seria "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo".

Ele não explicou o que isso implicaria para um Estado laico. Procurada pela Folha , a campanha afirmou que a ação seria apenas "simbólica".

Quero dizer para vocês que eu vou continuar fazendo a revolução na educação brasileira. Nós iremos universalizar escola de tempo integral nesse país até o ensino médio. Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia para o ensino médio e vamos criar o Pé-de-Meia universitário para que nenhum jovem, nenhuma menina desistam de estudar porque tem que trabalhar. Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, eu quero criar uma brasileira.