Chastalo, que ficou conhecido com o "Rodrigo Hilbert da Federal", relata os dias em que o acompanhou no cárcere no livro que será lançado nesta terça-feira (3). A construção de "Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula", da editora WMF Martins Fontes, é feita em ordem cronológica, como um diário, e se estende por 592 páginas. O UOL teve acesso com exclusividade aos capítulos iniciais do livro.
As frases citadas no começo desta reportagem foram repreendidas pelo comandante da aeronave que levava o presidente. "Peço que respeitem meu trabalho e se limitem a falar na fonia somente o essencial", disse. A controladora de voo do aeroporto Bacacheri, próximo à sede da PF, reforçava "que toda fonia é gravada, e isso poderá ser utilizado contra vocês [quem se manifestava]".
O petista ficaria na prisão até o STF (Supremo Tribunal Federal) proibir, em novembro de 2019 , a execução da pena até o trânsito em julgado dos processos. Lula foi considerado culpado em primeira e segunda instâncias nos casos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia —a condenação foi mantida pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça). Faltava, no entanto, o Supremo analisar a decisão.
O STF anulou as condenações em abril de 2021 por 8 votos a 3 por entender que o caso não deveria ser julgado pela 13ª Vara da Justiça Federal, em Curitiba, e sim pela Justiça Federal de Brasília. Antes, em março daquele ano, o juiz responsável pelo processo, o hoje governador eleito do Paraná, Sergio Moro ( PL ), foi considerado suspeito de julgar as ações contra o petista .
No livro, o agente descreve a relação com a imprensa ("tive uma primeira experiência desagradável"), como a relação com o presidente foi construída (Lula faz piadas com o cabelo do policial e o trata sempre por "querido"), o cuidado com o banho de sol e o assédio constante de drones para fotografar a estada.
Segundo Chastalo, a preparação para receber o presidente durou três dias. "Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso", escreve. Quatro planejamentos foram elaborados —ele não entra em detalhes de qual foi o escolhido e por que descartaram os demais.
Ao chegar na superintendência da PF, Lula ficou calado e "com a fisionomia abatida", segundo o agente. "Me senti constrangido com a situação", diz.
A cela de Lula tinha uma cama de solteiro, uma mesa de alumínio quadrada, uma cadeira e um armário antigo com sinais de desgaste, além das duas janelas com grades fechadas com correntes, cujas aberturas eram de no máximo dez centímetros. A bagagem tinha dois calções, uma calça de moletom, três camisetas, um chinelo branco e um kit de higiene pessoal. Um barbeador e um cortador de unhas foram retirados e só eram entregues sob solicitação.
No segundo dia de claustro, o agente poupou Lula da comida da superintendência e encomendou uma marmita de um restaurante próximo.
"Não pela qualidade da comida da PF, mas por cuidado mesmo. imaginei a possibilidade de alguém querer envenenar sua comida."
O primeiro banho de sol aconteceu apenas no quarto dia em um espaço usado para fumantes ou reuniões a céu aberto, cercado por paredes de dois metros, sem janelas e apenas uma entrada. Lula reclamou e comparou o local a uma jaula.