Estão no seu direito, claro. Mas existe algo de estranho, para não dizer cômico, em humoristas que reduzem Seinfeld às suas opiniões políticas. Guardadas as devidas proporções, é como imaginar um jogador de futebol profissional que reduz Maradona à sua paixão por Fidel Castro .
Infelizmente, não tenho esses escrúpulos. Nunca tive: as inclinações ideológicas de um artista só me incomodam se ele for um mau artista. Quando soube que Seinfeld viria a Lisboa, comprei o ingresso e marchei, como um soldadinho obediente e grato, para ver e ouvir o maior humorista da minha geração.
Imaginei que, fora e dentro do local do show, os protestos fossem pesados. Nada disso. Milhares de pessoas, nitidamente da Geração X , com opiniões políticas diversas, estavam ali pela deliciosa misantropia de Seinfeld.
Eu disse misantropia ? É preciso explicar, de preferência com o patrono da espécie. "Odeio e detesto esse animal chamado homem, embora ame de todo o coração o John, o Peter, o Thomas e assim por diante", escreveu Jonathan Swift ao amigo Alexander Pope em 1725.