Alguns dos maiores entendidos brasileiros do século 20, como Lucio Rangel, Sergio Porto, Fernando Sabino e Vinicius de Moraes —sim, Vinicius!—, achavam que só valia o jazz tradicional, de Louis Armstrong e de New Orleans, e que a música de Charlie Parker e do be-bop não era nem música, muito menos jazz. Era outra coisa, que eles detestavam.
Ao mesmo tempo, havia tradicionalistas tão xiitas que, para eles, o grande Louis era só o de 1925-27, com o Hot Five e o Hot Seven, e que, de 1930 em diante, tornara-se um artista comercial, que fazia mais caretas do que tocava. Duke Ellington, por sua vez, era atacado por eles porque sua orquestra dependia mais de arranjos do que de improvisos, e o jazz seria basicamente improviso.
Outro grande inimigo do jazz moderno foi o poeta e crítico inglês Philip Larkin. Suas maiores aversões eram a Miles e Coltrane, contra quem disparava as imagens mais hilárias e fulminantes. Sobre Miles: "Sua música é ideal para acompanhar enterros", "Um monumento à chatice rebarbativa" e "Menos interessante do que uma receita de geleia de ruibarbo lida de cabeça para baixo". Sobre Coltrane: "Será possível escutar Coltrane por prazer, com aquela tonalidade catarral, serrando para frente e para trás durante dez minutos sobre dois acordes, com guinchos e rangidos como giz no quadro-negro?".
Pobres Louis, Duke, Bird, Miles e Coltrane. Se nem eles conseguiram agradar a todo mundo, imagine Jesus Cristo .