Naquela época, já promovia lives de 24h e apelava para o "urgente" na hora de repassar informações.
Quatro anos depois da eleição de 2018, foi pré-candidato à Presidência pelo mesmo partido, mas abriu mão da candidatura para apoiar Lula . Na campanha petista, assumiu a tarefa de auxiliar com as redes e foi novamente eleito deputado.
Vindo de um lar humilde em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, filho de uma empregada doméstica que o criou sozinha —o pai morreu quando ele tinha apenas dez meses de vida—, o deputado federal reeleito pela Rede diz que nunca teve tempo para ter calma.
O jeito polêmico e espontâneo lhe rendeu, entre petistas, apelidos como " cachorro louco ", mas também o levou a se tornar réu no STF (Supremo Tribunal Federal) por injúria contra o ex-presidente Jair Bolsonaro ( PL ), e a ser condenado por danos morais por ofensas a bolsonaristas. Partiu dele, por exemplo, o apelido de "chupetinha" ao também deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL).
"Tudo o que se faz na vida tem um preço a se pagar, e esse é o preço. No lugar deles [bolsonaristas], eu também reagiria", responde o parlamentar.
Janones atendeu a reportagem nesta terça-feira (27) pelo telefone, dentro de um avião, aguardando a decolagem para o Rio de Janeiro, onde daria outra entrevista. O congressista deixava São Paulo dois dias após a reeleição do presidente Lula ( PT ), que o agradeceu por ter assumido a frente digital da reta final da campanha e garantido a virada do petista ante o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O sucesso do "Exército do Lula" , canal que arregimentou mais de 10 milhões de seguidores em menos de um mês, levou o deputado a ser procurado por campanhas de esquerda mundo a fora , sendo a mais emblemática a do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez.
O deputado garante à reportagem que nunca leu um livro sobre o tema e que aprendeu na prática, ao longo dos anos, sendo autodidata e com diagnóstico de altas habilidades. Ele afirma que recebeu o diagnóstico há seis anos de um psiquiatra e que isso o ajudou a entender o porquê de ser tão acelerado.
"Meu cérebro não para de ter ideias, até quando eu não quero, por isso eu não durmo muito", conta. Durante as madrugadas nestas eleições , bombava o canal do "Exército" de mensagens e viralizou o termo "explode", que afirma ter surgido pronto em sua cabeça.
Para lidar com o excesso da mente, faz análise ("agradeço primeiro a Deus e, em segundo, à psicanálise") e mantém uma rotina extensa de atividades físicas, que inclui musculação, boxe, corrida, pilates e, vez ou outra, forró. Os exercícios foram pausados para dar conta das tarefas de campanha e a vida normal, assim por dizer, ainda não foi retomada.
Cinéfilo, como ele mesmo se define, diz que se identifica com seu filme favorito, " À Procura da Felicidade ", com Will Smith, por considerá-lo autobiográfico. "Esse filme mostra o poder da resiliência, a história da minha vida", relata. O longa relata a trajetória do empresário Chris Gardner, que enfrentou a pobreza extrema antes de se tornar milionário.
"A minha vida foi de superação o tempo todo. Tive o privilégio de uma vida sem privilégios, e a urgência foi a matéria prima da construção da minha vida", conta.
Advogado de formação, Janones concluiu o ensino superior com uma bolsa de estudos que não era integral. Para complementar a mensalidade, trabalhava como cobrador de ônibus. Presidiu o diretório acadêmico da faculdade e integrou o movimento estudantil, filiado ao PT. "Foi quando comecei a me engajar, a entender o que eu poderia construir."
Já formado, passou a atender a população de baixa renda para garantir o acesso a direitos básicos, em especial atendimento médico. Diz que as liminares não eram cumpridas quando fazia pedidos educados, então passou a apelar para os barracos e posts nas redes sociais. Sob o mote de fiscal do povo, concorreu a prefeito de Ituiutaba em 2016, pelo PSC, mas não foi eleito.
Derrotado, diz ter investido todo o seu dinheiro na campanha. "Foi tudo embora: o banco tomou meu carro, minha casa e voltei para a miséria". Anos depois, veio à tona uma denúncia de que ele teria praticado rachadinha em seu gabinete, já como deputado federal, para arcar com dívidas daquela campanha. Inicialmente ele negou, mas depois admitiu e fez um acordo com a PGR (Procuradoria-Geral da República) para não ser processado criminalmente.
Janones também foi denunciado pela ex-mulher, a prefeita de Ituiutaba, Leandra Guedes (Avante), por ameaças de divulgação de fotos íntimas ao fim de 2024. No processo, que corre em sigilo, ela alega que ele tentava chantageá-la para exigir a demissão de uma servidora. Foi concedida uma medida protetiva à prefeita, que obriga o deputado a manter uma distância mínima de 300 metros dela. Na época, ele usou as redes sociais para negar as acusações e se dizer vítima de armação.
No entanto, vítima é uma palavra que Janones diz não gostar de usar. "A internet valoriza a vida real, e a vida real tem erros e imperfeições. Respondo a muitos processos porque fiz o que não devia fazer, porque falei o que não deveria falar, mas é isso: sou humano", diz.
"Não sou um cidadão de bem e nunca serei. Sou um cidadão que erra e acerta, mas que aprende e se transforma através dos seus erros."
Na trajetória e no jeito, Janones se encaixa na descrição do escritor João Guimarães Rosa sobre o mineiro: uma gente imaginosa e muito resistente à monotonia.
Janones se diz estrategista digital por acaso e faz das redes e do caos sua sobrevivência na política
Eleito deputado federal pelo Avante, em 2018, na esteira de vídeos que fez nas redes para auxiliar líderes de caminheiros durante a greve da categoria, André Janones , 42, não sabe explicar como virou um estrategista de redes.