IPCA+ é realmente a melhor proteção contra a inflação?

Você pode investir em um título que paga IPCA +6,5% ao ano e, mesmo assim, perder dinheiro enquanto a inflação sobe. Mais surpreendente ainda: um investimento prefixado ou atrelado ao CDI pode proteger melhor seu patrimônio da inflação e ai

Por Admin ·

IPCA+ é realmente a melhor proteção contra a inflação?

Você pode investir em um título que paga IPCA +6,5% ao ano e, mesmo assim, perder dinheiro enquanto a inflação sobe. Mais surpreendente ainda: um investimento prefixado ou atrelado ao CDI pode proteger melhor seu patrimônio da inflação e ainda remunerar mais. Como isso é possível?

Para compreender essa aparente contradição, precisamos entender o que significa investir em um título indexado à inflação.

Quando compramos um título que paga IPCA+6,5% ao ano, estamos contratando uma remuneração composta pela variação do IPCA e por uma taxa real de 6,5% ao ano. Se a inflação for de 5% em determinado ano, por exemplo, o rendimento nominal correspondente será de aproximadamente 11,83%, antes de impostos e custos.

A principal vantagem dessa modalidade, especialmente nos títulos sem pagamentos intermediários, é permitir que o investidor conheça antecipadamente sua remuneração real bruta, desde que mantenha o título até o vencimento e o emissor honre os pagamentos.

Diferentemente do prefixado, cujo rendimento nominal é conhecido, o IPCA+ preserva uma taxa de retorno acima da inflação medida pelo índice, mesmo que os preços subam mais do que o esperado.

Isso não significa, entretanto, que seja sempre a alternativa mais rentável. Considere dois títulos hipotéticos com vencimento em cinco anos, um prefixado de 12% ao ano e outro que paga IPCA+6,5%. Vamos supor que tenham riscos de crédito, tributação e condições de liquidez equivalentes e que sejam mantidos até o vencimento.

Se a inflação média anual equivalente durante esses cinco anos for de 3%, o título IPCA+ proporcionará uma remuneração nominal equivalente a 9,70% ao ano, inferior aos 12% do prefixado. Se a inflação for de 5%, o IPCA+ renderá aproximadamente 11,83% ao ano, ainda ligeiramente abaixo do prefixado. Já com inflação de 8%, sua remuneração nominal equivalente chegará a 15,02% ao ano.

Observe que o IPCA+ não deixou de proteger o poder de compra no primeiro cenário. Ele simplesmente proporcionou uma rentabilidade menor do que a alternativa prefixada.

Portanto, proteger-se da inflação e obter o maior rendimento real possível não são necessariamente a mesma coisa.

Mas como saber qual dos dois investimentos oferece a melhor oportunidade? A resposta passa por um conceito pouco conhecido dos investidores: a inflação implícita. Ela representa a taxa de inflação que, em uma comparação entre títulos equivalentes, igualaria o rendimento de um prefixado ao de um título indexado ao IPCA.

No nosso exemplo, um prefixado de 12% ao ano e um IPCA+6,5% apresentam o mesmo rendimento nominal se a inflação acumulada for equivalente a aproximadamente 5,16% ao ano. Acima desse patamar, o IPCA+ tende a superar o prefixado. Abaixo dele, o prefixado tende a oferecer maior rentabilidade.

Essa inflação implícita não representa uma previsão do IPCA futuro, pois também pode refletir prêmios de risco e condições de negociação. Ainda assim, oferece uma referência importante. Se o investidor acredita que a inflação dos próximos cinco anos será equivalente a 3% ao ano, o prefixado pode ser mais atraente.

Por outro lado, se sua análise aponta uma inflação de 6%, o título IPCA+ tende a oferecer um resultado superior. A decisão depende de como a expectativa do investidor se compara à inflação já refletida nas taxas disponíveis.

Há ainda uma terceira alternativa que não pode ser ignorada: os investimentos atrelados ao CDI. Embora não tenham correção direta pela inflação, eles podem proporcionar ganhos reais elevados quando os juros permanecem acima da inflação.

Um investimento que renda 100% do CDI, por exemplo, poderá superar tanto o prefixado quanto o IPCA+ se a trajetória dos juros ao longo do período for suficientemente elevada. Se o CDI acumulado em cinco anos for equivalente a 13% ao ano, superará o prefixado de 12% e também o IPCA+6,5%, desde que a inflação equivalente do período fique abaixo de aproximadamente 6,1% ao ano.

Isso ocorre porque o Banco Central utiliza a taxa Selic como principal instrumento de política monetária para controlar a inflação. Quando as pressões inflacionárias aumentam, a autoridade monetária pode elevar ou manter os juros em patamares restritivos.

Entretanto, essa relação não é automática: o CDI pode permanecer abaixo da inflação durante determinados períodos, produzindo rendimento real negativo.

Portanto, escolher entre CDI, prefixado e IPCA+ exige avaliar duas trajetórias futuras: a da inflação e a dos juros. O prefixado será favorecido quando a inflação efetiva ficar abaixo daquela implícita na comparação com o IPCA+.

O pós-fixado poderá se destacar se o CDI acumulado superar o rendimento das demais alternativas. Já o IPCA+ oferece maior previsibilidade da remuneração real contratada, desde que o investimento seja mantido até o vencimento.

Até aqui, comparamos os rendimentos que o investidor poderá receber no vencimento. Mas o que acontece se ele precisar vender o título antes dessa data? Nesse caso, um investimento IPCA+ pode render menos do que a inflação acumulada e até apresentar perdas nominais, porque seu preço varia conforme as taxas de mercado.

Considere alguém que compre um título IPCA+6,5% com vencimento em dez anos. Um ano depois, a taxa oferecida pelo mercado para títulos semelhantes sobe para IPCA+8,5%. Como os novos investimentos passaram a oferecer uma remuneração maior, o título antigo precisa ser negociado por um preço menor para se tornar competitivo.

Essa desvalorização pode superar a correção pela inflação e os juros acumulados no período. Esse mecanismo é conhecido como marcação a mercado e será aprofundado no próximo artigo da série.

Assim, o prazo do investimento é tão importante quanto o indexador escolhido. Quem pretende utilizar o dinheiro em três anos pode assumir um risco significativo ao comprar um título IPCA+ com vencimento em quinze anos.

Já quem deseja preservar o poder de compra de um patrimônio para uma necessidade futura pode encontrar nessa modalidade uma solução adequada, especialmente quando o vencimento coincide com o objetivo financeiro.

Também precisamos lembrar que o IPCA representa a inflação média de uma cesta de consumo. As despesas de cada família podem evoluir de maneira diferente, especialmente quando há maior concentração em saúde, educação ou outros serviços. Além disso, a taxa real contratada é bruta, e a tributação pode reduzir o ganho efetivo de poder de compra, caso a inflação suba significativamente.

Isso não diminui a importância dos títulos indexados à inflação. Eles são instrumentos valiosos para quem deseja contratar uma remuneração real por determinado período. O erro está em acreditar que, por acompanharem o IPCA, serão necessariamente os investimentos mais rentáveis ou estarão protegidos contra perdas em qualquer momento.

Um título IPCA+ sem pagamentos intermediários permite contratar uma taxa de retorno real bruta até o vencimento, mas não garante a maior rentabilidade nem impede perdas durante o caminho. Na renda fixa, proteger o patrimônio da inflação exige mais do que escolher um indexador. Exige compreender o preço da proteção e o prazo em que ela realmente funciona.

Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor .