Esse exemplo hipotético revela um problema na recomendação de que basta investir em ações por muito tempo para reduzir o risco de perder dinheiro. Tudo depende do que consideramos uma perda.
Uma das afirmações mais repetidas no mercado financeiro é que ações são investimentos para o longo prazo. A ideia tem fundamento: empresas podem aumentar seus lucros, reinvestir recursos e distribuir dividendos ao longo dos anos. Entretanto, existe uma diferença importante entre aumentar as chances de obter retornos positivos e eliminar o risco de um investimento.
Primeiro, precisamos distinguir três formas de perder dinheiro. A mais evidente é a perda nominal: investir R$ 100 mil e terminar com R$ 90 mil. A segunda é a perda de poder de compra: receber R$ 150 mil depois de dez anos, quando a inflação acumulada foi de 60%. Embora o patrimônio tenha aumentado, seria necessário chegar a R$ 160 mil apenas para preservar seu valor real.
A terceira é a perda de oportunidade: obter lucro nominal, superar a inflação e, ainda assim, terminar com um patrimônio inferior ao que poderia ter sido acumulado em outra aplicação de menor risco.
No Brasil, onde a renda fixa historicamente ofereceu juros elevados, essa comparação é especialmente relevante. Isso não significa que ficar abaixo do CDI represente necessariamente uma decisão errada: as alternativas precisam ser avaliadas considerando seus respectivos riscos, custos e expectativas.
Portanto, afirmar que o risco diminui com o tempo exige esclarecer qual risco estamos medindo.
Jeremy Siegel, em seu livro "Stocks for the Long Run", analisou séries históricas do mercado americano desde 1802 e encontrou um resultado impressionante: na amostra estudada, as ações não apresentaram perdas reais em períodos de vinte anos. Parte dos dados mais antigos, entretanto, é reconstruída, e o resultado não representa uma garantia para o futuro.
Em outra análise apresentada por Siegel, considerando janelas históricas de vinte anos entre 1802 e 2012, o retorno acumulado das ações superou o dos títulos públicos americanos de longo prazo em aproximadamente 84% dos períodos observados. Nos demais, os títulos públicos tiveram desempenho superior.
A experiência americana mostra que o tempo pode reduzir a frequência histórica de perdas reais, mas não garante que o retorno das ações supere outras alternativas. E não devemos extrapolar esses resultados diretamente para o Brasil, onde as taxas de juros e a trajetória do mercado acionário são diferentes.
Mesmo que as perdas se tornem historicamente menos frequentes em períodos longos, isso não significa que o resultado final seja previsível. Dois investidores que aplicam o mesmo valor por vinte anos, mas começam em momentos diferentes, podem terminar com patrimônios muito distintos.
Existe também uma diferença fundamental entre investir em um índice e comprar uma ação individual.
Quando se afirma que a Bolsa tende a se recuperar no longo prazo, normalmente são utilizados índices como o S&P 500. Entretanto, um índice diversificado não é uma empresa que permanece igual durante décadas. Sua composição se transforma: companhias que perdem relevância podem ser excluídas, enquanto outras passam a integrá-lo. Nos índices ponderados por valor de mercado, empresas cujas ações se valorizam também tendem a ganhar participação relativa.
Essa renovação reduz a dependência de empresas específicas, mas a valorização do índice continua dependendo dos resultados econômicos das companhias que o compõem. O rebalanceamento não apaga prejuízos anteriores nem garante recuperação.
Uma ação individual não dispõe dessa renovação. Uma companhia que hoje lidera seu setor pode perder competitividade, acumular dívidas, enfrentar mudanças tecnológicas ou até desaparecer. Nesses casos, suas ações podem jamais recuperar o preço anterior.
Além disso, o tempo não corrige necessariamente um preço de compra excessivo. Mesmo empresas que crescem podem proporcionar retornos decepcionantes quando as expectativas iniciais eram exageradas.
Por isso, é perigoso utilizar a recuperação histórica dos índices para justificar a manutenção de qualquer ação que sofreu uma grande desvalorização.
Muitos investidores acreditam que uma perda só acontece quando a ação é vendida. Enquanto permanecem com o investimento, repetem que basta esperar, pois no longo prazo o preço voltará a subir. Essa resistência em reconhecer prejuízos pode transformar a paciência em teimosia.
Mas o mercado não tem compromisso com o preço que o investidor pagou.
Imagine uma ação comprada por R$ 100 que caiu para R$ 40. A perda patrimonial já é de 60%, independentemente de sua venda. Para recuperar os R$ 100 iniciais, será necessária uma valorização de 150%. E, mesmo que essa recuperação aconteça, o investidor ainda precisará considerar a inflação e os retornos que deixou de obter durante a espera.
O preço original de compra pode se transformar em uma âncora psicológica. Em vez de avaliar as perspectivas futuras da empresa, o investidor passa a concentrar sua atenção em recuperar o valor que pagou. Isso não significa que devemos vender uma ação sempre que ela cai.
Se os fundamentos permanecem sólidos e o preço se tornou mais atraente, a queda pode representar uma oportunidade. O erro está em manter o investimento apenas porque se acredita que, com tempo suficiente, ele necessariamente voltará a subir.
Uma pergunta útil é: se eu não tivesse essa ação hoje, compraria pelo preço atual, considerando suas perspectivas e seus riscos?
Há ainda outro aspecto frequentemente negligenciado. O investidor não precisa apenas evitar prejuízos: precisa acumular patrimônio suficiente para seus objetivos.
Quem investe durante vinte anos para financiar a aposentadoria pode terminar com um patrimônio superior ao valor aplicado e, mesmo assim, não alcançar o montante necessário para sustentar a renda desejada. Nesse caso, o problema não é uma perda nominal, mas a insuficiência do resultado.
O prazo do investimento, portanto, deve estar relacionado ao momento em que os recursos serão necessários, à diversificação da carteira e ao retorno exigido para alcançar os objetivos. Uma queda expressiva justamente quando o investidor precisa utilizar o dinheiro pode comprometer anos de planejamento.
O longo prazo é uma vantagem importante para quem investe em ações, mas não é uma garantia. Ele pode ajudar a atravessar oscilações, permitir que empresas cresçam e favorecer a acumulação de dividendos. Não transforma, porém, uma empresa ruim em uma boa empresa, nem assegura que o retorno compensará os riscos assumidos.
Não perder dinheiro é muito diferente de ter feito um bom investimento. E investir para o longo prazo é uma estratégia; esperar indefinidamente que um erro se corrija não é.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor .