Apesar de os EUA terem divulgado nesta semana um crescimento acima do esperado , os investidores chegaram a conclusões divergentes sobre a sustentabilidade da alta impulsionada pela IA após os balanços corporativos do terceiro trimestre.
Embora parte dessa migração para os títulos seja um movimento temporário de operadores que aguardam a volatilidade das ações passar, outros argumentam que está ocorrendo uma mudança mais fundamental. Os indicadores de mercado sobre as expectativas de crescimento, que haviam provocado meses de vendas no mercado de títulos do Tesouro, inverteram a trajetória nas últimas duas semanas.
O rendimento de um título público de dez anos descontados os efeitos da inflação —o equivalente, no Brasil, ao Tesouro IPCA+ de longo prazo— caiu nesta semana para 2,58%, seu menor nível desde o início de setembro.
Os movimentos nos títulos de cinco e 30 anos foram igualmente expressivos, e ambos também atingiram os menores níveis desde setembro, revertendo grande parte das vendas.
Os rendimentos dos títulos caem junto com as expectativas de crescimento à medida que os investidores compram esses papéis, apostando que terão desempenho melhor que as ações. A saída das Bolsas nesta semana é menor do que a registrada no verão do Hemisfério Norte, mas a entrada em títulos é suficiente para sugerir que os investidores estão buscando maneiras de se proteger de sua significativa exposição à IA.
Bill Campbell, gestor de portfólio da DoubleLine, afirmou: "O mercado vinha apostando em um crescimento forte, sustentado pela IA e pela expectativa de algum alívio no Oriente Médio , e agora estamos reavaliando o cenário".
Notícias negativas vindas de Meta, Alphabet, Amazon e Intel nesta semana contribuíram para a queda de 2% do Nasdaq 100, somando-se às perdas das semanas anteriores e levando o índice ao território de correção.
Uma enorme parcela dessa queda veio da Alphabet, cujas ações recuaram 13% na quinta-feira (29), depois de a empresa informar que seu fluxo de caixa livre havia ficado negativo pela segunda vez em um trimestre desde sua abertura de capital, em 2004. Os investimentos em capital aumentaram drasticamente nas outras três empresas, enquanto a receita começou a desacelerar em algumas áreas.
Isso ocorreu no mesmo dia em que o Departamento de Análise Econômica informou, na quinta-feira, que a economia dos EUA havia crescido 3,4% no terceiro trimestre, acima dos 3,2% previstos pelos economistas consultados pela Bloomberg.
Priya Misra, gestora de portfólio da JPMorgan Asset Management, afirmou: "Não há indícios de desaceleração do crescimento em nenhum dos dados econômicos. Mas os mercados olham para o futuro. Uma reavaliação da IA implica uma reavaliação das expectativas de crescimento".
Há muito tempo, economistas alertam que a economia dos EUA se tornou excessivamente dependente do boom da IA.
"A composição do crescimento é preocupante", disse Vincent Reinhart, economista-chefe da BNY Investments. "Ela depende demais dos gastos com tecnologia . E não se trata apenas de um fenômeno dos EUA, mas de um fenômeno global."
Reinhart acrescentou: "Não é preciso ser pessimista em relação à tecnologia para ficar preocupado".
Robert Sockin, economista-chefe para os EUA da PGIM, afirmou que o boom da IA também estava despertando preocupações de que a economia americana corresse o risco de superaquecimento.
"Temos chamado este ambiente de a história das caudas mais grossas", disse Sockin. "Muitas vezes, ocorre um superaquecimento da economia, e isso leva a uma recessão."
Ele acrescentou que, embora a PGIM tenha elevado a probabilidade de crescimento forte no próximo ano, o risco de recessão também havia aumentado, de 10% no início deste ano para 20% há um mês. "Diante dos acontecimentos das últimas semanas... talvez seja 25%", disse Sockin.
O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, tentou nesta semana afastar essas preocupações, afirmando que as fontes da força da economia americana não estavam "concentradas apenas em nichos restritos".
"Essa é uma narrativa muito mais difícil de sustentar agora do que teria sido alguns trimestres atrás", disse Warsh na quarta-feira, após o Fed decidir manter inalterada a taxa de juros.
Alguns investidores também sugeriram que o problema com o crescimento e o boom da IA era mais uma questão relativa.
"Quando falamos de crescimento, muitas vezes medimos a variação de um ano para outro", disse Jason Granet, diretor de investimentos e chefe de serviços de crédito da BNY.
"Como as empresas de IA cresceram tanto no ano passado, será mais difícil superar esses números. O crescimento pode estar desacelerando, mas isso não indica necessariamente fraqueza na economia."
Investidores reduzem apostas em crescimento dos EUA em meio a temores de exposição excessiva a IA
Os investidores estão reduzindo expectativas para o crescimento dos Estados Unidos e comprando títulos públicos em meio ao aumento dos temores em relação às apostas em inteligência artificial.